SUICÍDIO E HOMICÍDIO: O PREÇO DO PROGRESSO

Cemitério do Icó Mandantes. O Lado esquerdo da capela foi destinado ao sepultamento de pessoas vítimas de homicídios até a o final da década de 2000 e aceito pela população sem discussão.

Cemitério do Icó Mandantes. O Lado esquerdo da capela foi destinado ao sepultamento de pessoas vítimas de homicídios até a o final da década de 2000 e aceito pela população sem discussão.

A taxa de suicídio verificada no Icó Mandantes Petrolândia Pernambuco nos últimos cinco anos (2009 a 20014) é estarrecedor. 50.0. suicídios para cada grupo de 100.000 habitantes. A média no Brasil é de 6.0 dados de 2012. Petrolândia 10,15 e Itacuruba PE 26,60. Estes dados para o Projeto Icó Mandantes são alarmantes. Não Basta prevenir e combater, temos que antes buscar as possíveis causas. Uma delas seguramente é de ordem sociocultural e política.

Em 1988, com o fechamento das comportas da Barragem de Itaparica construída pela ELETROBRÁS / CHESF, romperam-se, compulsoriamente, os laços sociais, familiares, de amizade e com o meio ambiente de comunidades formadas por pessoas simples, trabalhadoras, sérias, honestas, que viviam livres como os passarinhos. Todos foram obrigados a dedicarem-se a agricultura irrigada tendo ou não experiência ou vocação.

Às margens do Rio São Francisco desapareceram as comunidades de Malhada vermelha, Carirú, Sobrado, Pé de Serra, Icó, Lagoa do Icó e Papagaio;

Às Margens do Riacho dos Mandantes: Poço da Madeira, Olho D’agua, Sítio Novo, Lagoa da Areia, Caraíba, Boa Vista, Marí, Caiçara e Panela D’agua;

Às margens do Riacho do Limão Bravo: Lagoa do Cipó, Lagoa do Angico, Chapada, Poço da Onça, Campinho, Cachimbo e Limão Bravo.

Vale aqui salientar que estou falando apenas das comunidades localizadas no município de Petrolândia. Comunidades às margens do Rio São Francisco localizadas na Bahia e município de Floresta e outras cidades adjacentes aqui também foram reassentadas. Ao todo 800 famílias.

Na primeira década pós reassentamento as taxas de homicídios entre jovens foram alarmantes a ponto de no cemitério local ter sido destinada uma ala exclusiva para pessoas vítimas de homicídio envolvidas em crimes de assalto à mão armada, roubo de carga, pistolagem, etc. Esses jovens eram filhos de reassentados. Em outras palavras: É como se não fossem seres humanos, cristãos.

Para conhecer a verdadeira história de como se deu o deslocamento e reassentamento da população e uma das possíveis causas de tanto suicídio e homicídio no Icó Mandantes leia esta matéria:

O Projeto Icó Mandantes de Petrolândia Pernambuco ontem hoje e amanhã

 “Todo processo de mudança promove novas adequações identitárias e, durante algum tempo, as populações que passam por tal processo sentem-se perdidas, pois parte de suas crenças e de suas vidas foram arrancadas, e por esta razão, vêem-se obrigadas a se redefinirem diante do mundo e de si mesmo” (prof. Severino Vicente).

“O sociólogo Emile Durkheim assinalou, no século XIX, um conceito de laço social que ainda hoje nos é muito útil. Quanto maiores os laços sociais em uma determinada comunidade, menores seriam as taxas de mortalidade por suicídio. Este conceito sociológico pode ser transposto para o nível individual: quanto menos laços sociais tem um indivíduo, maior o risco de suicídio”. (Suicídio: informando para prevenir / Associação Brasileira de Psiquiatria, comissão de Estudos e Prevenção de Suicídio. – Brasília: CFM/ABP, 2014, pg 22).

No momento o projeto Icó Mandantes passa por uma relativa e aparente fase de tranquilidade e prosperidade ao lado dessa alarmante taxa de suicídio. Os homicídios estão dentro da faixa de normalidade. Paralelamente, uma bomba relógio vem sendo lentamente montada em função do crescimento endógeno da população. Nos últimos 26 anos a população mais que triplicou. Nos próximos 10 anos teremos mais de 2.000 jovens entre 15 e 25 anos sem ter onde trabalhar, sem esperança, e com a autoestima em baixa. 95% desses jovens não querem mais se dedicar à agricultura, e mesmo que quisessem não há mais terra para trabalhar. Os governos Federal, Estadual e Municipal sozinhos não têm condições para resolver o problema. Se alguma coisa não for feita de imediato, a criminalidade vivida na primeira década do reassentamento voltará com muito mais força, agora facilitada pelo acesso fácil à drogas muito mais poderosas e o uso indiscriminado de agrotóxicos que vem contribuindo para o aumento do índice de suicício.

Entre esses agrotóxicos estão os organofosforados (Lorsban, Folidol, Azodrin, Malation, Diazinon, Nuvacron, Tamaron, Rhodiatox) e os carbonatos (Furadam, Carbaril, Temik, Zectram, Sevin). Não existe fiscalização ou qualquer controle.

O INSTITUTO AFIM nasceu nesse contexto. A sua fundação foi gestada a partir das necessidades sentidas e vividas pela própria comunidade local. Estamos tentando buscar parcerias junto aos órgãos governamentais e empresarias para evitar esse caos anunciado. Uma das soluções que perseguimos é agregar valor ao que aqui se produz através criação da cultura do empreendedorismo e associativismo e com isso partirmos para um novo modelo de desenvolvimento para o projeto através da agroindústria familiar. Isto não apenas elevará a autoestima dos jovens como também garantirá a sucessão familiar. Precisamos fazer com que os jovens sintam orgulho do meio rural onde vivem tornando-se produtivos e donos do seu próprio negócio.

Em fim, estamos lutando para concretizar um sonho. Estamos à procura de empresários e ONGs que queiram abraçar a nossa causa. Juntem-se a nós. Temos certeza que vamos conseguir.

…………

OBS: Os dados referentes ao Icó mandantes foram levantados em 24/09/2015. Fui em todas as agrovilas conversar com moradores fazendo a seguinte pergunta: quantas pessoas cometeram suicídio entre 2009 e 2014? Total 15. Para o cálculo foi considerado uma média de 6.000 habitantes nos últimos cinco anos. Deste total um foi cometido com revolver e outro por enforcamento. Os demais por envenenamento oriundo de produtos agrotóxicos.

5 comentários

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  • rozalia ferraz

    quero que o nosso projeto vá afrente…

  • Isso Ivandro, mas não só o poder publico. O polo sindical e os sindicatos são os pais desse modelo de reassentamento que está aí. O que eles fizeram de concreto para que o projeto acordado em 1987 com a chesf fosse cumprido?

  • Professor Paulo Campos, parabéns pelo teu trabalho e de todos que participaram da criação do Instituto AFIM e continuam lutando para fazê-lo crescer. A questão econômica e social do Projeto Icó-Mandantes e de praticamente todos os perímetros irrigados do Empreendimento Itaparica é muito triste e preocupante. O diagnóstico do Prof. Severino Vicente que você citou é, na minha opinião, a indicação certeira do principal fator que resulta nesse número elevado de suicídios. E o mais revoltante é ver o poder público, em todas as esferas, ficarem completamente inertes e ausentes. Lamento que a crise hídrica venha agravar mais ainda essa situação. O lago de Sobradinho, hoje, está com 8 % de seu volume útil, o que poderá dentre de 30 dias levar a um colapso do fornecimento de água para irrigação. E o pior é ver a CODEVASF ficar omissa, inerte, diante desse quadro assustador. Não aparece sequer para dizer como vai ficar a situação até o final do ano e que medidas podem ser tomadas para conviver com isso, mesmo que seja de forma paliativa. Acho que o Instituto AFIM está no rumo certo: o empreendedorismo e o associativismo podem criar alternativas viáveis de produção para inserir o jovem no processo produtivo e tirá-lo da ociosidade que leva ao vício e a outros caminhos mais perigosos. Eu faço parte do projeto Icó-Mandantes e sou, de certa forma, um reassentado. Estou à disposição para o que puder ajudar dentro das minhas limitações. P.S.: queria lembrar que os agrotóxicos organofosforados causam danos ao sistema nervoso central, levam à depressão e têm sido, também, apontados como causa de suicídios entre agricultores.

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