Iphan PE: Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Petrolândia não tem relevância cultural e afetiva para a população

Foto: Petrolândia, ontem, hoje, sempre

Foto: Petrolândia, ontem, hoje, sempre

Em 1988 o Governo Federal através da Eletrobrás/Chesf, ao fechar as comportas da Barragem de Itaparica (Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga), destruiu o meio ambiente, dizimou culturas, rompeu laços familiares e de amizade de mais de 10.500 famílias nos Estados de Pernambuco e Bahia. Agora o IPHAN PE, autarquia do mesmo governo Federal sob a presidência do Engenheiro Frederico Faria Neves Almeida, superintendência estadual responsável pela preservação de bens patrimoniais históricos culturais, repete a mesma lógica perversa das grandes hidrelétricas ao rejeitar o pedido de tombamento da Igreja do Sagrado Coração de Jesus localizada em Petrolândia, no Lago de Itaparica ao caracterizá-la, equivocadamente, como Ruinas Submersas. “Trata-se das ruínas submersas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, cuja construção, em estilo de inspirações ogivais góticos, iniciou-se nos primeiros anos da década de 1950 e nunca foi finalizada face ao fechamento das comportas da barragem de Itaparica em 1988, que a inundou” (IPHAN, 2015, parecer número IB/03/MS/2015).

Esta Igreja nunca esteve submersa mesmo quando o lago atingiu a sua cota máxima. Monumentos históricos submersos, em Petrolândia, ficaram o Cais e a Estação Ferroviária D. Pedro II construídos pelo próprio Imperador D. Pedro II. Ela está lá há 27 anos, localizada agora no Lago de Itaparica a 500 metros da BR 110, simbolizando a nossa história, exibindo a sua beleza para a população nativa e todos que passam pela referida BR pedindo socorro para que não a deixem sucumbir apagando assim a marca mais significativa do passado coletivo da cidade de Petrolândia.

O parecer do IPHAN diz, nas entrelinhas, que a Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Petrolândia não possui relevância histórica, cultural e afetiva para a população: “O que se percebe no presente pleito de tombamento, é o realinhamento das relações de poder do planejado, do não planejado, dos novos arranjos nas estratégias de vida, alguma coisa aquém das tensões de relevância. O que interessa, muito mais que uma simples descrição das manifestações individuais em si, é a malha social que cria o contexto onde o estresse de um saudosismo pode florescer. Neste caso, o estresse oriundo da emersão das ruínas da Igreja do Sagrado Coração de Jesus – Petrolândia/PE e do consequente saudosismo associado, distanciando-se significativamente do valor excepcional que deve carregar um bem cultural nacional”. (IPHAN, 2015, parecer número IB/03/MS/2015).

Neste caso só interessa ao IPHAN PE bens de excepcional valor? Sem desmerecê-los, seus técnicos agiram de forma elitista, burocrática e, para ser gentil, prefiro dizer excessivamente equivocada. Elitista por afirmar que um bem cultural deve ter valor excepcional e burocrática por se ater ao pé da letra tanto no que se refere ao pedido de tombamento como a interpretação da Lei. Excessivamente equivocada por dizer que o bem está submerso. Ora, que significado teria tombar uma Igreja submersa?

Não é por eu não ser historiador, arquiteto, sociólogo, arqueólogo, antropólogo, geógrafo ou jurista que eu não possa perceber entender e interpretar e chegar a conclusão que o bem objeto deste processo tenha ou não valor histórico e cultural.

Segundo Silvia Zanirato “O patrimônio é um conceito muito amplo e nele se inscrevem os bens culturais e naturais, ainda que nem sempre essa acepção seja considerada. Não é algo circunscrito às criações físicas do homem, nem somente a algo monumental, excepcional do ponto de vista da história, da arte, da estética. Ele é formado por uma série de elementos naturais e culturais, materiais e imateriais que registram os modos de vida ao longo do tempo. Nesse entendimento o ambiente é um patrimônio porque nele se desenvolvem diferentes formas de vida. O patrimônio também não se limita aos bens reconhecidos e protegidos por leis. Mesmo aqueles que não se encontram nessa condição podem ser considerados patrimônio porque há neles valores afetivos, de existência, de identidade”. (http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/510945-patrimonio-cultural-e-natural-mais-um-tema-ignorado-na-rio20-entrevista-especial-com-silvia-zanirato)

A Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Petrolândia “No gênero, é o único bem cultural que restou após o fechamento das comportas da barragem de Itaparica e a única ponte que liga o passado ao presente cujo patrimônio histórico arquitetônico ainda está nascendo: 24 anos.

A proposta parte do princípio de que esta Igreja é a ponte que une o passado ao presente na região de Itaparica. Ela marca a luta do governo central que se inicia no século XVIII contra a erradicação da pobreza absoluta no semiárido nordestino. D. Pedro II quando aqui esteve em 1887 manda construir um cais e uma ferrovia. Ele já previa naquele momento desenvolver mecanismos para acabar com a indústria da pobreza que estava por vir”. Assim senhores técnicos do IPHAN PE ela representa toda a história do nosso passado como bem histórico, cultural e ambiental.

Esse estresse que os técnicos do IPHAN não conseguem enxergar na malha social petrolandense tem colocado nossa cidade no ranking das cidades com maior número de pessoas que cometem suicídio em PE. Lembrando mais uma vez: A proposta de tombamento em nenhum momento fala em submersão ou emersão da Igreja do Sagrado coração de Jesus.

Se a proposta de tombamento não conseguiu traduzir para os técnicos do IPHAN PE o significado de relevância cultural e afetivo da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em parte submersa, se está aquém do esperado, que considerassem o espirito da lei e solicitassem mais informações a quem mais interessa, a população petrolandense.

Conclui o parecer: “É possível, entretanto, que o proponente, faça o requerimento do tombamento da referida igreja em nível Municipal (se for de interesse municipal, junto a Prefeitura Municipal) e/ou Estadual (se for de interesse estadual, junto a FUNDARPE – Fundação de Apoio do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco).”. (IPHAN, 2015, parecer número IB/03/MS/2015). Fica aqui a pergunta: O Município ou o Governo Estadual pode tombar um bem cuja propriedade é da União?

Senhores técnicos do IPHAN PE: Não é ao poder executivo, em qualquer esfera, que interessa o tombamento ora solicitado. É à população. Os políticos passam, os laços sociais e afetivos permanecem. “O Estado não pode colocar-se como centro onde se defende e se irradia a memória, pois, ao fazê-lo, destrói a dinâmica e a diferenciação interna da memória social e política; não pode ser produtor da memória e nem o definidor do que pode e deve ser preservado” (Marilena Chauí)]

Ora, se foi o governo imperial quem deu início a construção de bens históricos culturais que estão hoje submersos (Cais e Estação Ferroviária D. Pedro II, se o próprio nome de Petrolândia é uma homenagem a D. Pedro II, se foi o governo federal quem aqui construiu o primeiro projeto de irrigação, se foi o governo federal quem construiu a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, se foi o próprio governo federal quem construiu a Barragem de Itaparica destruindo a fauna e a flora nativas, dizimando culturas, rompendo laços familiares e de amizade em nome do progresso, se o bem cultural objeto da solicitação de tombamento, é por lei de propriedade do Governo Federal, a proposta de tombamento teria que ser encaminhada ao IPHAM. Se fosse aprovado caberia à ELETROBRÁS/CHESF preservá-lo.

Lembramos à nossa população que apenas o ato de tombamento de um bem material ou imaterial é capaz de impedir a sua destruição e/ou descaraterização. Qualquer outra ação ficará ao sabor da sensibilidade do interesse político momentâneo do poder executivo.

Vamos agora apelar para que a Prefeitura encontre o melhor caminho para que a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, localizada no Lago de Itaparica, continue esbanjando a sua imponência para nós e para o mundo.

Matérias e vídeos veiculados na imprensa sobre a Igreja do Sagrado Coração de Jesus:

Petrolândia: Visualização da imponência das ruínas da igreja de Barreiras é único ponto positivo da redução das águas de Itaparica

 

Proposta de tombamento

Parecer do IPHAN PE número IB/03/MS/2015. Nesse Parecer o IPHAN PE inclui Viviane Freire Florentino como parte interessada. Informo que ela é minha filha e que apenas protocolou, a meu pedido, a proposta de tombamento, por morar no Recife. Não o fiz pessoalmente porque resido na área Rural de Petrolândia. Apesar de ter sido emitido em 15 de maio do corrente só tomamos conhecimento no 11/09/2015

2 comentários

  • Sonia Maranhāo

    Matei muita saudade !
    Nas corredeiras de Itaparica , quando o Velho Chico baixava sua imponência aquática , fazíámos picnic e eu com meus 10 anos chegava na casa do Núcleo cheia de belos seixos.
    Ao ouvir as palavras desse outro Chico, retornei à velha charqueada que provavelmente abrigou a fá brica de doces da Barreiras.Ri comigo das trelas nos grandes tacho ao sentir o cheiro de tāo deliciosa goiabada.
    E a Estaçāo ? Ficava bem em frente a casa do Núcleo e numa ocasiāo fizemos uma festança de aniversário lá , imitando um casamento que fomos em Moxotó. AS Jovens prendiam uma fita vermelha ( Simbolo do Coraçāo de Jesus onde os jovens comprometiam-se em pagar sorvete de banana para as crianças que nos ajudavam no traquejo do Rio, principalmente no pier com grandes pedras arredondadas.
    Quem sabe um dia nāo faça uma elegia a Cidade da minha boa parte da 2*infāncia e inicio da juventude.?

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