CABEÇA VAZIA É OFICINA DO DIABO (Entendendo o discurso do Vereador Eudes)

Petrolândia 05 de maio de 2015

O objetivo desta matéria é tentar entender ou fazer entender o significado do termo “cabeça vazia” utilizado pelo Vereador Eudes Fonseca na sessão plenária na câmara de vereadores de Petrolândia realizada em 29/04/2015: “…uma indicação na qual eu solicitei ao gestor municipal a abertura de uma casa da juventude para o projeto Icó Mandantes na qual como justificativa lá nós temos vários jovens, alguns talvez com a cabeça um pouco vazia e outros talvez por falta de oportunidade … para dar assistência ao jovens para que eles possam desenvolver suas práticas e desempenhar alguma atividade ligada ao agronegócio…” (Extraído do áudio publicado no Petrolândia notícias) 

O titulo desta matéria é um provérbio e como tal facilmente reconhecível e memorizado embora na concepção popular assuma vários significados que são interpretados de acordo com a situação social, emocional de quem emite e de quem ouve. Cabeça vazia significa, no entendimento mais usual, pessoas desocupadas, sem trabalho, sem metas a seguir. Se foi isto que o Nobre Vereador Eudes quis dizer eu diria que no Icó Mandantes não tem apenas alguns de cabeças vazias, tem centenas, e nos próximos dez anos serão milhares. Na primeira década do reassentamento existiam no Icó Mandantes alguns jovens de cabeça vazia e o diabo soube como aproveitar para nelas construir a sua oficina. Entenda aqui: (O Projeto Icó Mandantes de Petrolândia Pernambuco ontem hoje e amanhã) Não será, agora, que uma Casa da Juventude idealizada e construída para alguns, sem comunicação e ou interligação com todo o sistema que fomenta as políticas públicas do nosso município que vai resolver o problema. Quem vem produzindo essas cabeças vazias é o sistema de ensino que nos últimos anos está abaixo dos limites aceitáveis para uma região que produz riqueza e uma população de mais de sete mil habitantes.

Em fim não adianta inventar a roda. Melhor lê o que Graciliano Ramos escreveu há em 1936, portanto há 79 anos: ANGÚSTIA, o romance mais rico em todos os sentidos que ele escreveu. Sugiro aos professores do ensino médio especialmente do Icó Mandantes que distribuam com seus alunos o texto abaixo e peçam que eles respondam as seguintes perguntas:

1-Existe diferença entre a situação politica e social identificada por Graciliano Ramos há 79 anos?
2-Por quê Marina era considerada uma pessoa de cabeça vazia?

PESADELO QUE NÃO ACABA

“Um crime, uma ação boa dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos”, pensa Luís da Silva, narrador de Angústia, modesto funcionário público. Se vivesse hoje, mais de 60 anos depois, sua situação seria a mesma ou pior. De lá para cá, alguns indicadores sociais melhoraram, mas outros vícios, como a corrupção e a falência dos costumes, agravaram-se.

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Robert H. Heilman observa, a propósito da Tess de Hardy: “Nossos egos estão ligados às nossas idéias; querem que os fatos se ajustem às idéias, do contrário nos ofendemos e tendemos, se tivermos poder para tanto, a nos tornar punitivos”. Pois bem: a punição, em primeira etapa, vai para Luís da Silva, e este se humilha mais para sofrer mais, para purgar. Depois, com o aparecimento de Marina, os fados oferecem-lhe breve trégua. No seu romance de fundo de quintal com Marina – quintais cheios de lixo e plantações mesquinhas, onde um homem carrancudo e uma mulher triste trabalham com pipas e dornas -, Luís tem a impressão de descobrir o amor, quando está atraído pelo erotismo e Marina anseia apenas em sair da pobreza absoluta. De qualquer modo, é a felicidade: ele está relativamente tranqüilo, tem uns três contos de réis de economias, deseja casar-se. A idéia de casamento precipita a tragédia pessoal banhada pela tragédia social. Moça estouvada, de cabeça vazia, pensando em ostentações, Marina consome num ápice as suadas economias de Luís no enxoval e, em pleno “noivado”, aceita a corte de um estranho, Julião Tavares, um parasita de discurso empolado e arrogância pavonácea. Tavares é o resumo de tudo quanto oprime Luís: dinheiro fácil, berço de ouro, prestígio social, mediocridade intelectual, poder de corromper e safar-se ileso. Gordo, cínico e esperto, Julião Tavares invade a casa de Luís, seduz Marina e distancia-se quando ela ostenta sinais de gravidez. A família submete-se: nenhuma queixa, apenas resmungos. Os humildes aprendem a vergar a espinha sob o peso dos opressores. O sedutor lança-se à conquista fácil de outras meninas pobres.

Mas o narrador de Angústia, espezinhado, traumatizado, esbulhado pela vida – este reage. É que o sofrimento atinge o ponto da exasperação, ele tem as comportas cheias de água estagnada. A fúria que antes o devastava se dirige ao opressor. Ele não tem, como Moisés, coragem de pichar muros, de distribuir “folhetos incendiários”. Mas o Presidente dos Imortais lhe põe nas mãos o instrumento da vingança – uma corda. A essa altura o monólogo de Luís da Silva – o fluxo “objetivo” do inconsciente, ou seja, a linguagem da ação – se transforma em delírio. Imagens se atropelam: o cano de água é uma corda, a gravata enrola-se como corda, a cobra em volta do pescoço de Trajano é corda viva. O narrador vê-se compelido a matar Julião Tavares após a verificação de que Marina, grávida, procura parteira clandestina. No capítulo final as referências ao passado se aglomeram. É um entrechoque de lembranças. As imagens trágicas do meio rural e da vida urbana de Luís se juntam para entoar o coro da tragédia. Início e fim do romance se fecham quais pontas de um leque. Angústia é um pesadelo contínuo. O narrador pergunta: “Haverá dentro de 20 anos criaturas assim que, tendo corrido mundo, se resignam a viver num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, respirando podridões, desejando um pedaço de carne viciada?” Sim, e em condições ainda piores. (Texto extraído do Portal São Francisco)