Petrolândia vs Cocal dos Alves

Petrolândia 22 de maio 2013

O texto, abaixo juntamente com as fotos e vídeo apresentados, são uma tentativa de levar os leitores a refletirem sobre o que há de diferença entre Petrolândia e Cocal dos Alves.

O que descrevo tem caráter meramente acadêmico visando contribuir, simplesmente, para o debate a respeito de um tema que vem sendo amplamente divulgado na imprensa e bastante discutido no meio educacional. Nada de pessoal contra a pessoa de quem quer que seja, político ou não. Espero que tenham discernimento capaz de distinguir uma coisa da outra.

Para facilitar a análise vou me deter a descrever fatos do cotidiano do Projeto Icó Mandantes, localizado na área rural de Petrolândia Pernambuco por ser a comunidade onde moro e que conheço como a palma da minha mão. A população desta comunidade é superior a de Cocal dos Alves.

Cocal dos Alves é uma cidade pobre, encravada no interior do Piauí com pouco mais de 5.600 habitantes. A agricultura é a sua principal fonte de renda. É a típica cidade que vive praticamente do FPM – Fundo de Participação dos Municípios. Seu pib per capta é 2.951,15. Em termos econômicos o contraste com Petrolândia é estarrecedor: População 36.000 habitantes, pib per capita 18.737,90, sete vezes superior ao de Cocal dos Alves.

O Projeto Icó Mandantes é formado por 16 comunidades: Quinze Agrovilas e a Vila dos Pescadores. A agricultura irrigada é um dos principais motores que impulsionam a economia de Petrolândia. Os serviços públicos como estradas, escolas, postos de saúde, sistema de tratamento de água foram construídos pela CHESF e mantidos durante muito tempo pela Prefeitura através de recursos financeiros repassados pelas CHESF. Para saber mais detalhes deste projeto leia (O Projeto Icó Mandantes de Petrolândia Pernambuco ontem hoje e amanhã )

Em vários pontos Cocal dos Alves assemelha-se às comunidades do Projeto Icó Mandantes: “Quanto mais se enumeram as vitórias, maior é o contraste com o tamanho da cidade a 300 quilômetros de Teresina. De perto, Cocal dos Alves parece menor ainda do que revela o tamanho de sua população. Muitas famílias moram em casas afastadas em meio a grandes plantações de cajueiros, a principal fonte de renda da cidade. A maior parte das ruas é de terra ou areia e frequentada por galinhas, cabras e porcos que vivem fora da cerca.” (http:// ultimosegundo.ig.com.br/educacao/em cocal dos alves nada e mais importante que competicoes educacionais/n1597057185707.html)

A inferioridade econômica de Cocal dos Alves se inverte quando analisamos as condições educacionais, hoje, das duas comunidades, e projetamos a situação dos jovens de lá e daqui para os próximos 15 anos.

Que futuro espera os jovens de Cocal dos Alves e do Projeto Icó Mandantes? Esta é a pergunta que cada leitor deve responder depois de ler o texto que se segue.

A nave que move alunos e pais de alunos pobres em busca do sucesso é movida por dois combustíveis: Sonhos e ideais. Tanto a nave como os combustíveis são gratuitos e existem em abundância na natureza, mas não estão disponíveis à população pobre principalmente do meio rural a menos que surja um Antônio Amaral de Cocal dos Alves, “sem lenço e sem documento”, movido apenas ao desejo de disponibilizar à população pobre de sua cidade essa fonte inesgotável de energia que remove qualquer obstáculo que surja na frente dos que sonham. Uma energia tão forte capaz de ter 100% dos alunos, dessa pequena cidade, inscritos no vestibular de uma Universidade Federal aprovados com distinção.

Mas se apenas um professor de Escola Ppetrococalública Municipal de uma das cidades mais pobres do Piauí, com as condições materiais mínimas, foi capaz de num universo de 20 milhões de alunos, fazer seus discípulos se tornarem campeões da OBMEP- Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas conquistando 120 medalhas em 5 anos, imaginem se o poder público municipal por esse Brasil afora tivesse vontade política para incentivar aqueles que estão diretamente com a mão na massa, cujo interesse é simplesmente mudar a realidade sócio econômica dos que mais precisam desse combustível infalível e gratuito: Sonhos e Ideais.

A população pobre de Petrolândia e particularmente do Projeto Icó Mandantes, teve a mesma oportunidade, respeitada a devida proporcionalidade quanto a natureza do objeto em questão.

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Em 2010 três escolas ficaram entre as de melhor desempenho na avaliação do SAEPE na GRE de Floresta, que inclui Belém, Carnaubeira, Floresta, Itacuruba, Jatobá, Petrolândia e Tacaratú. O Prefeito da nossa cidade não perdeu tempo e não permitiu que o burro passasse selado. Foram comemorações e comemorações pela conquista. Até outdoors foram espalhados pela cidade. Mas os principais atores dessa brilhante conquista, professores, alunos e comunidade da Escola Municipal Juá na Agrovila 10 do Icó Mandantes foram esquecidos. Até o Laboratório de Informática para a Escola e um notebook para cada Professor prometidos pelo Governador Eduardo Campos, se veio, ninguém sabe ninguém viu. Enquanto em Cocal dos Alves brilharam as estrelas dos professores e alunos, aqui os protagonistas do sucesso educacional foram o Governador e o Prefeito com seus assessores de primeiro e segundo escalão que aproveitaram o sucesso dos outros para fazer proselitismo político.

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Quando eu vi, pela internet em 2011, o Prefeito e seu staff recebendo do Governador as “merecidas homenagens” fui à Escola Juá para saber o que ela tinha de diferente para ser tão boa. O professores presentes, entre eles Clécio e a professora Rita, convenceram-me com suas respostas características de educadores comprometidos e vocacionados para o magistério, mas a resposta mais convincente veio de uma mãe de aluno: “Esta escola é boa porque a comunidade é atuante, participa intensivamente da vida da escola”. Pelo que observei in loco a Prefeitura não fez nada, absolutamente nada, além do mínimo necessário para que a escola pudesse funcionar. Até uma Sala especial para instalar o Laboratório de Informática a escola construiu com recursos próprios e da comunidade. Até o momento, nem a cabaça e nem o mel.

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A semente que ali foi plantada por professores alunos e pais poderia ter se espalhado pelas demais 15 escolas transformando o Projeto Icó Mandantes num Cocal dos Alves. Quem sabe agora, professores estivessem fazendo mestrado ou doutorado em alguma Universidade com bolsas do governo federal e alunos se preparando na certeza de que ingressariam em qualquer instituição educacional de alto nível.

O vídeo, abaixo, deveria ser visto e debatido em todas as salas de aula do Ensino Fundamental e Médio do Brasil.

A Política em Petrolândia: Caminhos ou descaminhos?

Petrolândia 12 de maio de 2013

Há muito que eu observava que algumas coisas, em Petrolândia, estavam sendo plantadas fora do lugar. Que o caminho seguido pelos homens “pur nóis escuído para as rédias do pudê” terminaria dando com os burros n´água. Mas quem erra o caminho poderá voltar e refazê-lo. O problema é que se demorar a descobrir que os burros estão morrendo afogados, o povo poderá fechar a porteira obrigando-o a seguir um descaminho sem volta.

Há muito que o mundo fala em auto sustentabilidade, mas aqui as coisas foram, na Petrolândia pós barragem, orientadas para seguir na contramão desse pensamento contemporâneo e o comando de quem comandava e comanda as políticas públicas do nosso município era e é o do descaminho da insustentabilidade. Logo que percebi que existia alguma coisa de estranho na condução das políticas públicas em Petrolândia eu transcrevi neste Blog, em 10/02/2012 um trecho da carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios: (Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios)

Se você discordar do, texto abaixo, leia a carta acima citada e releia novamente esta matéria. A sua reflexão será outra.

O primeiro caminho da insustentabilidade que observei foi o grandioso Parque de Vaquejada João Pernambuco. O Reinado aqui de Petrolândia encontrou, neste parque, o ópio ideal para o povo, em três dias do ano, esquecer por um momento os problemas sócio econômicos do nosso município. Neste local pratica-se e fomenta-se um tipo de cultura exógena, uma tipo de vaquejada que nunca existiu nas caatingas destas paragens. Não se leva em consideração, a história do nosso tempo, uma história totalmente fora dos Padrões de vida de antes da barragem. O homem do campo, agricultor das terras esturricadas de outrora, o vaqueiro de pega de boi no mato da época de Lampião hoje se dedica a uma atividade por natureza auto sustentada: A agricultura irrigada. Uma atividade que faz o povo do sul do Brasil e de outros países se orgulhar de viver e trabalhar no campo cultivando a terra, produzindo aquilo que o mundo todo precisa: alimentos saudáveis. Em vez de se promover eventos auto sustentáveis cria-se um elefante branco a moda medieval: Uma pista ao centro onde os bois, vindos de Mato Grosso e Goiás, transportados em carretas boiadeiras, pagos a peso de ouro com dinheiro público, vão ser massacrados sob aplausos do povão sentado nas arquibancadas de madeira engolindo poeira recheadas de gás metano e gás carbônico produzidos pelos puns e arrotos da boiarama. Nos camarotes o “Rei de Portugal”, a moda século XV ladeado pelos seus súditos que vivem às custas das benesses da corte, e que só sabem dizer amém a tudo que o seu senhor ordena, aplaudem e deliram cada vez que um peão de vaquejada derruba, quebra a perna ou arranca o rabo do boi no centro da pista. Tudo isto regado a cuba libre, muito uísque e rok in roll à la baiana. Música de vaquejada só para os que estão nas barracas comendo bode temperado com poeira recheada pelo efeito estufa causados pelo pum e coliformes fecais de boi. O lucro para o bolso do Rei vem depois do evento. Além dos royalties do aluguel dos bois tem os da vaqueirama, os das bandas superfaturadas e os hospitais e postos de saúde nas agrovilas que passam o mês inteiro abarrotados de gente com gripe e diarreia que agradece gentilmente ao rei por tê-la atendido prontamente com seus médicos e enfermeiros de plantão. A conta vai depois para o SUS e a cobrança vem para o povo no momento da eleição por esse magnífico feito ecologicamente insustentável, mas eleitoralmente rentável.

Se em vez de diversão às custas do sofrimento de animais indefesos esse Parque de vaquejada fosse um Parque Olímpico funcionando 365 dias do ano, formando cidadãos em vez de súditos, preparando a nossa juventude para competir nas grandes olimpíadas por esse mundo afora, quantos atletas iriam representar a nossa região nos Jogos da XXXI Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro?

O segundo caminho da insustentabilidade é o evento que ocorre todo ano chamado PETROFEST. Mais um ópio mantido pela Prefeitura. É o ralo por onde se escoa em direção à Bahia as economias da população local. É um campo minado para a contratação de bandas superfaturadas. É o momento onde se expõe e reproduz de forma dissimulada o mesmo preconceito contra os pobres que existia na velha Petrolândia. E por ser dissimulado muito mais violento e prejudicial os seus efeitos nas camadas mais pobres da comunidade.

Quem se lembra das normas de funcionamento do Clube Recreativo de Petrolândia? Lá só entrava a “fina flor” da sociedade petrolandense. Para frequentar tinha que ser branco. De cor e mulher falada não entrava. O preconceito deixava de existir se a pessoa fosse rica. Os pés no chão e os “falados” se divertiam frequentando “O Piçarrinha – assim era chamado o Clube construído por Manoel Anísio da Mota – foi um marco de cidadania e civilidade em Petrolândia, embora, talvez, não reconhecido”. Nele, o cidadão de cor, rico ou pobre, não era constrangido, não tinha receio de ser barrado à porta”. (José Izidio da Silva, A Serra e o Rio) 

O Piçarinha da velha Petrolândia é hoje o Grêmio Lítero Recreativo. E a Petrofest é o Grêmio Lítero Recreativo da velha Petrolândia. É difícil aceitar e entender esta lógica. O problema é que o desejo do homem de determinados níveis culturais de se apresentar como superior em relação ao próximo perpassa gerações através do seu imaginário social e assim, individualmente e coletivamente, ele cria, recria e mantém eventos sociais que refletem o seu preconceito latente sem perceber a verdadeira natureza dos seus atos. Seguindo este raciocínio a “fina flor” da Petrolândia de hoje está nos camarotes da Petrofest financiados pela Prefeitura para que o Rei e seus súditos, e os novos ricos da nova cidade curtam os filhos da mesma “fina flor” da cidade brincando dentro do cordão, e a pobreza pipocando atrás do trio elétrico. Lá nos camarotes tudo regado a cuba libre, muito uísque e rok in roll à la baiana. Cá embaixo muito capeta feito de bebida falsificada.

O terceiro caminho da insustentabilidade foi o mega projeto de urbanização da orla de Petrolândia criado na gestão do Prefeito Marquinhos. Durante a inauguração, outubro de 2008, eu olhei para os quatro cantos e perguntei a mim mesmo: de onde virão os recursos para manter tudo isso? Vigilantes, Jardineiros, Energia, manutenção das pistas de caminhada? Porque não se tentou viabilizar um projeto autossustentado em parceria com os empresários? Porque a Academia das Cidades, Projeto do Governo Estadual não foi feito aqui? Resultado: A continuidade e manutenção foram abandonadas pelo seu sucessor e a situação hoje é esta: “O matagal toma conta de alguns pontos, onde não é interessante para os animais soltos ali pastarem, aparando o mato. Também é preciso tapar buracos e rachaduras na pista de cooper e repor algumas lâmpadas dos postes. Os frequentadores das caminhadas de final de tarde e início de noite andam quase às escuras”. (Blog de Assis Ramalho )

A Cacimba – Homenagem aos 109 anos de Zé da Luz

Petrolândia 02 de maio de 2013

Alguém se recorda ou ouviu falar destes locais que desapareceram do mapa depois da Barragem de Itaparica? Poço da Madeira, Olho D´água, Sítio Novo, Lagoa da Areia, Caraíba, Boa Vista, Icó, Lagoa do Icó, Lagoa do Cipó, Lagoa do Angico, Chapada, Poço da Onça, Campinho, Cachimbo?… A resposta positiva existe apenas para poucos que se preocupam em passar para os seus descendentes a sua história de vida vivida e convivida em convivência com os momentos de seca com muita luta e dificuldade nestes saudosos locais. Locais onde os laços de amizade, seriedade, respeito e a palavra empenhada eram ponto de honra e princípio ético aceito por todos sem discussão. Locais onde as pessoas eram valorizadas pela honestidade e capacidade de se solidarizar com o próximo e não pela capacidade de ostentar carro do ano e habilidade maquiavélica de enganar inocentes indefesos. Locais “das muié séria Dos homes trabaiador” (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

A juventude de hoje, que estuda e estudou nas escolas do Icó Mandantes poderia conhecer e valorizar mais o seu espaço e o seu passado se os gestores do nosso município, pós Barragem de Itaparica quisessem que o nosso povo construísse o seu futuro a partir do conhecimento do seu passado. “Quem não sabe de onde vem não sabe para onde vai e não sabendo para onde vai não chegará a lugar algum”. (Paulo Campos, 2010 – Viajando em Busca de Mim Mesmo)

Em quais desses locais existiam aquela famosa cacimba destinada exclusivamente para que as moças do local tomassem banho de cuia? Vocês sabiam que as águas dos riachos que tinham como nascente essas cacimbas tinham um gostinho saboroso diferente? Vocês sabiam que o mato desses locais tinha olho?

Para homenagear os 109 anos desse Paraibano arretado “Zé da Luz” não deixem de ler refletindo, abaixo, essa obra prima da literatura Nordestina. Essas cacimbas não existiam apenas na Itabaiana cidade da Paraíba de Zé da Luz. Existiam por aqui também. Muitas estão, hoje, submersas, purificando e deixando as águas do Lago de Itaparica com o “gostim do suó do suvaco das moça” donzela que habitavam a região do hoje Icó Mandantes.

A cacimba (Zé da Luz)

Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra.

Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia.

Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê…

As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça…
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça…

Quando eu vejo éssa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá…

… Desejo, prá quê negá?
Desejo ser um caçote,
cum dois óio dêsse tamanho
Prá ver aquele magóte
de môça tumando banho!

Petrolândia: Sua História ou suas estórias?

IcoBack

Petrolândia 01 de maio de 2013

De repente tudo muda. Passa-se uma borracha no passado e tudo começa a acontecer como se o ontem não existisse. Do passado apenas a saudade.

De repente me vejo, como tantos outros tenho certeza, sem passado, sem história, sepultados nas águas do Velho Chico, pelo Lago de Itaparica. Como num passe de mágica tudo passa a acontecer como se Petrolândia tivesse começado em 1996.

De repente os heróis que marcaram a infância na minha cidade natal e influenciaram o meu futuro e de tantos conterrâneos, com todos os seus acertos, erros equívocos e defeitos de repente deixaram de existir. José Araújo (Zé de caboco) ferrenho adversário de Amaro tio do atual Vereador Carlinho como Zé Gominho, Itamar Leite, Lino Bento, José Dantas, Cecídio Rubens (Hercílio) e tantos outros devem, é o que há indícios, serem agora esquecidos e jogados no lixo e triturados nas máquinas eletrônicas digitais dos novos tempos do neocoronelismo para que não deixem vestígios historiográficos que eles foram os heróis que construíram, com todas as dificuldades características daquele contexto histórico as bases culturais que formam a personalidade do povo petrolandense.

Se não conseguirmos barrar a borracha do rolo compressor que vem apagando os passos que foram dados pelos homens que com todos os seus defeitos, erros e acertos lutaram para construir a Petrolândia de ontem sem saber que passos deram para construir o hoje e que nós somos parte desse passado não tão distante, ficaremos sem qualquer noção de tempo sem poder, jamais dizer para os nossos filhos, netos, bisnetos para onde eles devem ir e até onde poderão chegar.

De repente, diante do atual contexto político da nossa querida Petrolândia bate forte a saudade dos momentos que antecediam as eleições, na minha infância no Icó, mesmo com todo ranço coronelesco tão característico da época. Foram momentos que marcaram e formaram a minha personalidade. Foram momentos que me fizeram sentir vontade de estudar, estudar e estudar para não ter que no futuro me humilhar pedindo emprego a políticos que, desconhecendo o seu passado, têm nojo de pobre e ensinam, via sistema de educação, à pobres inocentes terem nojo dos seus colegas. É só acompanhar com certa atenção os batepapos no facebook para constatar esta triste realidade.

De repente ao lembrar de Amaro (pai do Vereador Carlinho) e do seu adversário político Caboco Lola pai de Zé de Caboco (José Araújo) vestindo os seus uniformes brancos de linho ou gasimira, os versos de Zé da Luz do “Brasi Caboco” me deixam diante do seguinte dilema: Será que não seria melhor que o tempo não tivesse passado e ainda hoje os políticos agissem como os nossos sérios e honestos precursores construtores das bases culturais do povo de Petrolândia? Será que em vez da cultura exógena que se tenta impor artificialmente à história de Petrolândia ainda tivéssemos usando o vocabulário de Zé da Luz do Brasi Caboco?

Paulo Campos

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Brasi Caboco (Zé da Luz) 

O qui é Brasí Caboco?
do Brasí das capitá.
É um Brasi brasilêro,
É um Brasi diferente
sem mistura de instrangero,
um Brasi nacioná!

É o Brasi qui não veste
liforme de gazimira,
camisa de peito duro,
com butuadura de ouro…
Brasi caboco só veste,
camisa grossa de lista,
carça de brim da “polista”
gibão e chapéu de coro!

Brasi caboco num come
assentado nos banquete,
misturado cum os home
de casaca e anelão…
Brasi caboco só come
o bode seco, o feijão,
e as veiz uma panelada,
um pirão de carne verde,
nos dias da inleição
quando vai servi de iscada
prus home de posição.

Mas porém. Brasi caboco,
é um Brasi brasileiro,
sem mistura de instrangero
Um Brasi nacioná!

É o Brasi sertanejo
dos coco, das imbolada,
dos samba, dos vialejo,
zabumba e caracaxá!
É o Brasi das vaquejada,
do aboio dos vaquero,
do arranco das boiada
nos fechado ou tabulero!

É o Brasi das caboca
qui tem os óio feiticero,
qui tem a boca incarnada,
como fruta de cardoro
quando ela nasce alejada!

É o Brasi das promessa
nas noite de São João!
dos carro de boi cantano
pela boca dos cocão.

É o Brasi das caboca
qui cum sabença gunverna,
vinte e cinco pá-de-birro
cum a munfada entre as perna!

Brasi das briga de galo!
do jogo de “sôco-tôco”!
É o Brasi dos caboco
amansadô de cavalo!
É o Brasi dos cantadô,
desses caboco afamado,
qui nos verso improvisado,
sirrindo, cantáro o amô;
cantando choraro as mágua:
Brasi de Pelino Guedes,
de Inácio da Catingueira,
de Umbelino do Texera
e Romano de Mãe-d’água!

É o Brasi das caboca,
qui de noite se dibruça,
machucando o peito virge
no batente das jinela…
Vendo, os caboco pachola
qui geme, chora e soluça
nas cordas de uma viola,
ruendo paxão pru ela!
É esse o Brasi caboco.
Um Brasi bem brasilero,
sem mistura de instrangêro
Um Brasía nacioná!

Brasi, qui foi, eu tô certo
argum dia discuberto,
pru Pêdo Arves Cabrá