Pedagogia da Ignorância Letrada

Petrolândia 07 de setembro de 2012

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Eu tinha decidido não fazer qualquer comentário de natureza crítica sobre a nossa realidade social nesse período pré-eleitoral. Contudo, algumas publicações aqui no face obrigam-me, como educador rever a posição até então assumida. Pessoas vinculadas ao poder na Prefeitura de Petrolândia tentam assassinar o hino da resistência à ditadura miliar querendo apropriar-se de personagens que se tornaram símbolos da história política e musical do nosso País. Se em tais atitudes pudéssemos, pelos menos, perceber vestígios de engajamento político consciente até que poderíamos perdoar. Contudo o que se observa são colocações de natureza ingênua e de total ignorância política e social. Isto pode levar a nossa população a escolher de forma equivocada o futuro dirigente da nossa cidade. Estou falando de Geraldo Vandré e de sua música PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES. Informo, porém, que não estou falando de Dr. Simões, pois ele pertenceu a esse período político do quem “sabe faz a hora” e, por formação política, dificilmente permitiria que o nome de Vandré fosse utilizado para manipular pessoas. Vontade política, compromisso com os mais necessitados são traços que não se transferem necessariamente através dos nossos genes.

Acredito que Geraldo Vandré, autêntico nordestino de João Pessoa, Paraíba, jamais se orgulharia e nem votaria no 22, pelo contrário: sentiria vergonha de quem trata gente como se fosse gado “Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, Mas com gente é diferente” (Geraldo Vandré).

Até o momento 150 alunos do ensino fundamental (1º. ao 5º ano) da Agrovila 4 do Projeto Icó-Mandantes, Escola Municipal Macambira estão confinados numa casa de 3 quartos sem as menores condições de espaço e higiene. Em quartos de 3 x 4 m, 20, 25, 30 crianças atropelam-se em busca daquilo que lhe é mais sagrado: O direito à educação. Em um único banheiro, de 1,5 X 1,0 m, sem as menores condições de higiene para essa quantidade de pessoas meninos e meninas, homens e mulheres fazem rodízio. Estão nesta casa desde o final de Julho porque a Escola Macambira está em reforma. Uma reforma muito simples que poderia ter sido realizada pela própria comunidade no período de férias. Em piores condições estão as crianças da agrovila 6 deste projeto desde o mês de fevereiro. Constatem com os seus próprios olhos dirigindo-se a estas duas agrovilas. Nestas e em mais 15 agrovilas e Vila dos Pescadores residem pessoas humildes, que pelas dificuldades que já passaram na vida não conseguem se desvincular do coronelismo que ainda impera no nosso município maquiados de bons moços.

Estes problemas estão relacionados a infraestrutura, ou seja, aos meios. Há outros referentes aos fins da educação tão graves quanto este ou até pior, pois se passa de forma silenciosa. Pessoas imersas numa concepção equivocada da realidade não conseguem perceber.

É bastante conhecida a forma como políticos maquiavélicos, em busca da permanência no poder, agem para não permitir que a população menos favorecida possa ascender socialmente através da educação: Primeiro colocando-se a culpa no insucesso da criança nos pais. Assim, os alunos têm baixo rendimento porque os pais não ajudam nos deveres de casa, não comparecem às reuniões de pais e mestres, etc, etc. Segundo, reduzindo a carga horária. Para isto recorre-se a todo tipo de artifício: Pinta-se a escola no período letivo, promove-se todos os tipos de reuniões no horário de aula, capacita-se professores em dias letivos, procede-se a dedetização da escola numa 4ª feira, para que os alunos fiquem três dias sem aula. Na Escola Dr. Trajano Pires da Nóbrega, onde minha filha Laura de seis anos estuda, em 2011 o ano letivo efetivo correspondeu apenas a 148 dias em vez de 200. Este ano, não chegará a 140.

No dia 28 deste mês fui convidado para uma reunião de pais e mestres. O emissário dos gestores deram, ditatorialmente, dois importantes recados: “por ordem da diretora de ensino rural a escola vai ser fechada a partir do dia 29 para realização de pintura. Os alunos deverão ficar três dias sem aulas”. Foram cinco dias de férias forçadas. O segundo aviso foi surpreendente e de extremo artifício maquiavélico: “Os alunos de todas as escolas do projeto Icó-mandantes com bom rendimento vão ter reduzida sua carga horária em uma hora até o final do ano para que os professores possam dar aulas de reforço aos mais fracos. Sem qualquer avaliação criteriosa indica-se, através do achismo, quem tem ou não bom rendimento. Com esta medida as crianças do Projeto Icó-Mandantes terão sua carga horária reduzida em 90 horas, aproximadamente, o que corresponde a 20 dias letivos.

A que conclusão pode-se chegar? Que a Prefeitura de Petrolândia, de forma dissimulada está adotando o seguinte critério: A todo aluno do Projeto Icó-Mandantes que apresentar bom rendimento deve ser proibido de continuar aprendendo. Assim os Gestores da educação no nosso município acabam de criar uma proposta pedagógica sui generis: A PEDAGOGIA DA IGNORÂNCIA LETRADA.

A essa altura vocês devem estar perguntando. O que foi que eu fiz para evitar este caos? Fiz tudo que estava a meu alcance e continuo fazendo denunciando neste Blog. Convoquei reuniões extraordinárias de Pais e Mestres, fiz manifestos, fiz carta aberta à população da comunidade com cópia para o Prefeito e Secretário de Educação. Resultado: Não consegui apoio de ninguém. Nem de qualquer pai ou de qualquer professor ou de qualquer gestor. O que conseguir foi o mesmo que Chico Buarque na música gente humilde:

……….
“Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
………..
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar”

Não se deve, colocar aqui, qualquer culpa na família ou professores. “Estes estão tão imersos na realidade opressiva que não possuem uma percepção clara de si mesmos, pois seu modelo de humanidade é o modelo da opressão e para serem homens precisam ser como os opressores, pois estes representam seu TIPO DE HOMEM”. (Paulo Freire)

A SÍNDROME DO CACHORRO VIRA-LATAS

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Petrolândia 05 de setembro de 2012 

O MEC se orgulha da mediocrização da educação brasileira. Incentiva, o povo a se orgulhar da ignorância letrada ao veicular, na imprensa, uma propaganda, a meu ver, enganosa. Esta propaganda, em vez de elevar a autoestima poderá criar, na nossa juventude, a síndrome do cachorro vira-latas. Diz ela que quase todas as escolas atingiram a meta e que estão perto de chegar a 6,00, rendimento este considerado aceito nos países desenvolvidos. É bom saber que, aqui no Brasil, uma escola que obteve média 5,00 poderá, dependendo da média estabelecida, ter atingido a média da mesma forma que a outra que tenha conseguido média 4,00. Um aluno que tenha conseguido média 6,00 num país desenvolvido se fizer esta aprova, aqui no Brasil, provavelmente chegará a 10,00. O aluno brasileiro, com média 6,00 que for avaliado nos países do primeiro mundo conseguirá atingir que média? É consenso no meio acadêmico o faz de contas das provas do IDEB principalmente o aplicado em 2011. Assim, corre-se o risco de se criar na nossa população a síndrome do cachorro vira-latas.