A Moto e o Jumento

Petrolândia 15 de março de 2012 

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Eu andava, tranquilamente, fazendo mototerapia lá pras bandas do Sobrado, quando encontrei esses velhos companheiros de outrora ou como diz Luiz Gonzaga: nosso irmão. Companheiros de um tempo em que o tempo não contava. Um tempo em que a velocidade não tinha importância alguma. Um tempo em que todos, ao andar devagar, caminhavam ouvindo os sons da mata: o som das flores se abrindo, o som das catingueiras bebendo o orvalho da manhã. De repente um deles olha para mim, torce o rabo, liga as antenas, sintoniza na frequência do meu pensamento e dispara:
-Se não me faia a memória estou conhecendo vosmicê seu caba da peste. Vosmicê não é aquele que nos anos de mil e novecentos e antigamente eu carregava no lombo levando para a escola?
-Sim amigo sou eu mesmo.
-Vosmicê não tem vergonia? Mesmo depois de véio fez como os outros, me trocou pela moto? Lembra dos velhos tempos quando eu levava vosmicê no lombo tocando outros jumentos, carregados de melancia no caçuá, do Limão Bravo até a feira de Barreiras?

-Ora meu amigo, lembro de tudo isso. Mas naquela época nós saíamos daqui no sábado à tarde para chegar à feira de Barreiras no domingo bem cedinho. Quinze horas de viagem para ir e mais quinze para voltar. Hoje esse percurso nós fazemos de carro ou de moto em apenas 30 minutos.
-Siná dos tempos. Mas naquela época quando eu me espantava vosmicê às vezes caía, e foram muitas quedas, mas vosmicê nunca sofreu nada grave, mesmo quando tava chei de mé. Essa sua máquina fotográfica já registrou todas as capelinhas existentes na beira da estrada relembrando os que faleceram? Elas não relembram os jumentos que foram atropelados por motos ou carros. Relembram seus amigos que morreram em acidentes de moto. Só nos últimos anos vosmicê perdeu 8 amigos entre 15 e 25 anos de idade, aqui no Icó Mandantes. E toda semana pelo menos um é levado, todo arrebentado, de ambulância para os hospitais de Petrolândia, Caruaru ou Recife.
-É isso aí, sabe que eu nunca tinha pensado nisso? hoje não temos tempo nem para refletir sobre essas coisas.
-Tudo bem continue aí fazendo sua mototerapia, mas dê um recado a seus amigos humanos que de tão preocupados com a velocidade não perceberam que tornaram-se desumanos com a natureza e com nóis seus irmãos nos velhos tempos: Que lembrem, como Luiz Gonzaga, que nóis fumo o maior instrumento de desenvolvimento do Sertão. Ajudamos vosmicês na lida diária, que um dia ajudamos o Brasil a se desenvolver. Arrastamos lenha, madeira, pedra, cal, cimento, tijolo, telha. Fizemos açude, estrada de rodagem. Carregamos água pra casa de vosmicês. Fizemos a feira em cima de montaria. Que lembrem que já servimos até de transporte pra Nosso Senhor quando ele ia para o Egito. Não esqueça de dizer aos seus amigos desse tá de facebook pra botarem fotos das antigas feiras de Petrolândia e Barreiras. Aí vosmicês vão relembrar que só existia estacionamento pra cavalo, burro e jumento. Automove? Só os caminhões de seu Né de Tacaratu e Zé da Cruz de Petrolândia, que faziam as feiras de Tacaratu, Petrolândia, Floresta e Barreiras. Quanta diferença em?
-Vou dar o recado direitinho. Vocês ainda vão ser muito úteis por aqui. Tem muito turista por esse mundão afora querendo andar de jumento pelas trilhas da Reserva Legal do Projeto Icó Mandantes. Vou até sugerir que seja criado uma modalidade turística com o seguinte slogan: jumentoterapia nas trilhas do Projeto Icó Mandantes.