Vai com Deus meu amigo Juvêncio

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“Como a semente posta na terra, nós não perecemos quando morremos, mas tendo sido plantados, nós levantamos” (Santo Atanásio).

Hoje mais um dos grandes homens, simples, humilde, determinado, agricultor, membro de uma grande família formadora da consciência cidadã desse nosso pedacinho de chão passou para o outro lado da vida.

A foto registra um dos vários momentos em que nos encontrávamos na estrada que liga Petrolândia ao Icó Mandantes. Era 23 de novembro de 2013. Esbanjava saúde. Ele na sua moto Bross e eu na minha. Vinha da sua roça no Limão com destino a outra roça no Umbuzeirão. A poeira só não cobria os nossos olhos. Eu andava documentando a Flora e Fauna da Reserva legal quando, sobre um sol de rachar, mais uma vez tive a oportunidade de bater um bom papo sobre a seca que implacavelmente sempre assola o nosso sertão. Ele para a moto e diz:

– Bom dia Paulo.

Bom dia. Trocou o jumento pela moto? Antigamente você só andava por aqui à cavalo ou jumento.

– Todos nós meu amigo, e devemos dar graças a Deus, embora naquela época a vida fosse muito mais tranquila do que agora. Hoje os tempos são outros. O que tá fazendo com essa máquina na mão? Pensa que as catingueiras estão mortas? Veja, só tem ali um Pau de Ema verde. Se não fosse a barragem o povo daqui hoje estaria morrendo de fome. Muitos comiam a raiz dele e macambira. Elas não estão mortas. Estão dormindo. Quando cair os primeiros pingos de chuva elas acordam e em oito dias estão tudo verde novamente. Tem uns abestalhados na televisão dizendo que o Rio São Francisco vai morrer. Não sabem de nada. Só Deus sabe qual será o futuro do Velho Chico e com certeza não vai nos abandonar.

OPERÁRIA MORRE ENVENENADA NO ICÓ MANDANTES

Lamentável. Logo que tombou, seus companheiros e companheiras nativos começaram a saquear os alimentos que ela levava para casa, enquanto outros cantavam, alegremente, sem perceber o que estava acontecendo. Ela morava numa comunidade extremamente organizada, talvez a mais social e mais estável de todas as comunidades. Ela saía todos os dias para trabalhar às cinco horas da manhã e voltava, no máximo, às 10 horas quando o sol, implacável, informava que ela deveria voltar à sua casa. Às 15:00 horas saía novamente para trabalhar. Percorria diariamente até 1,5 quilômetros para realizar o seu trabalho e quando voltava trazia alimentos para os que ficavam em casa. Era responsável pela manutenção da biodiversidade e altas taxas de produtividade da agricultura irrigada no nosso Município. Nunca cobrou nada pelo seu trabalho. É provável que hoje ela tenha trabalhado em uma plantação contaminada por agrotóxico.

O Projeto Jovem Empreendedor da agroindústria familiar, promovido pelo INSTITUTO AFIM, vem lutando com paciência e persistência para tornar a nossa agricultura familiar autossustentável. Em futuro não distante nossos produtores perceberão que não precisarão usar produtos que destroem a nossa biodiversidade e que causam tantas doenças ao ser humano (defeitos de nascença, câncer, etc). Nossos jovens empreendedores do Icó Mandantes de hoje perceberão que a goiaba, o tomate, a melancia e tantas outras frutas que produzimos não precisam ser bonitas e nem tão pouco ter valor de mercado quando destinadas à produção de doces e compotas.

OBS: São chamadas de OPERÁRIAS as abelhas que saem da colmeia em busca de alimentos, o néctar das flores. Chegam a carregar um volume maior que o seu peso corporal.

A primavera chegou

A Primavera chegou no Icó Mandantes. Para o semiárido nordestino, esta é a estação do ano em que a vegetação começa a adormecer para esperar as chuvas do mês de março. Desta vez não nos presenteou com o espetáculo lindo e deslumbrante que ocorre nessa época do ano, quando as folham caem dando lugar ao contagiante esplendor das flores.

Neste início de primavera não da pra ver as flores sorrindo no azul da manhã. Não dar pra ouvir o som das flores se abrindo. Não dá pra ouvir o som das catingueiras bebendo o orvalho da manhã.

As fotos, abaixo, lado a lado, das mesmas árvores fotografadas ontem e hoje falam por si só. O que aconteceu?

As abelhas não virão, os animais não terão como se alimentar e nem terão como se proteger nas sombras da vegetação. As Arribaçãs não virão do sul do país fazer aqui a desova. Pebas, Tatús, Tiús, Tamanduás e pássaros em extinção se tornarão presas fáceis do seu predador implacável: O homem. Quando o verão chegar será muito mais quente.

Diz Mário Quintana que “O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Essa frase pode ser transposta para a vegetação do semiárido: O segredo é não correr atrás das chuvas… Cuide da Fauna e da Flora que elas virão no momento certo.

Mas o homem, o ser mais irracional de todo o reino animal, continua se preocupando apenas em viver o momento atual. Para ele o futuro a Deus Pertence. Não pensa como sobreviverão as futuras gerações. Lamentável.

Pau de Ema

Pau de Ema

Pau D’Arco ou Ipê Roxo

Pau D’Arco ou Ipê Roxo

Flor de Macambira

Desmamtamento

 

Meu Pé de Ipê Roxo: Pede socorro no Dia da Árvore

Pau D’Arco ou Ipê Roxo

Pau D’Arco ou Ipê Roxo

Pau D’Arco ou Ipê Roxo

Pau D’Arco ou Ipê Roxo

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– Olá meu amigo. Você passa por aqui todos os anos desde 2010 sempre nessa época. Desculpe-me, hoje eu não posso mais lhe presentear com aquela deslumbrante beleza. Antes você dizia que estava fazendo mototerapia. Prometeu passar a fazer jumentoterapia. E agora vem fazendo carroterapia. Cadê a moto?

– Substituir pelo carro. Estou cada vez mais cansado e andando devagar. No carro o risco é menor.

– Ora, se está andando devagar deveria ter vindo no seu velho amigo jumento. Esse aí produz tanta poeira que está me sufocando.

– E é por isso que você está sem as flores?

– Não. Esse aí vai me matando aos poucos com tanta poluição. A falta de flores é pela falta de chuva. Já não sirvo mais nem para vocês fazerem cabo de machado. Mas também nem seria necessário. Agora o homem usa a moto serra. Acaba conosco em poucos segundos. Nos anos de mil e novecentos e antigamente, nessa época de seca, vocês desabavam daqui como retirantes para as cidades. Voltavam quando São Pedro abria as porteiras e eu estava aqui, firme, esperando. Agora, depois da Barrarem de Itaparica, são os retirantes das cidades apelidados de sem terra que veem de lá pra cá. Já sinto cheiro deles aqui por perto. Acho que no próximo ano você não me encontrará mais aqui.

– Vai viajar?

– Não. Você certamente não me verá mais. Estarei escondido nas paredes das casas de taipa dos Sem Terra ou transformado em carvão para os churrascos que eles fazem nos finais de semana. Veja, no chão, o que fizeram ontem comigo. Quando o Projeto Icó Mandantes foi criado vocês prometeram que aqui seria a reserva legal. Nós seriamos preservados para servir de pulmão aos reassentados. Será que esqueceram que eu sou a Árvore Símbolo da Flora Nacional?

– E os fiscais do IBAMA não passam por aqui?

– Que nada amigo. Será que eles também são Sem Terra?

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A Inutilidade da Fauna e da Flora

Serra do Papagaio, Icó Mandantes

Serra do Papagaio, Icó Mandantes

A mãe natureza preocupada com os problemas que assolam o mundo atual convoca suas filhas Fauna e Flora e ordena: Vocês precisam decidir com urgência que rumo seguir: Se continuam sendo inúteis como sempre foram desde que o mundo se fez mundo ou se é melhor se tornarem úteis para os seres humanos. Dividam-se em dois grupos: O reino animal e o reino vegetal. Cada grupo deverá discutir o tema e redigir um documento a ser apresentado em um congresso formado pelos representantes de cada grupo. No final me tragam a conclusão a que chegaram.

O mais interessante é que os dois grupos tomaram, separadamente, a seguinte decisão: Primeiro deveriam fazer uma pergunta ao ser humano: Você é capaz de suportar a nossa utilidade?

– Responde o ser humano: Não. Nunca a suportamos, por isso sempre a fizemos escravas de nossos interesses.

Tarefa cumprida levaram à Mãe Natureza o seguinte documento:

– Nossa decisão é continuar sendo inúteis ao ser humano. Ele não suporta a nossa utilidade.

– Responde a Mãe Natureza: – Deixem que ele se autodestrua. Nós renasceremos. Ele não.

Quando setembro passar

Petrolândia 01 de setembro de 2015

Pau de Ema

Pau de Ema

Pau de Ema

Pau de Ema

“Setembro passou, Outubro e Novembro, Já estamos em Dezembro, Meu Deus que é de nós, Meu Deus, meu Deus, Assim fala o pobre, Do seco Nordeste, Com medo da peste, Da fome feroz”… (Luiz Gonzaga)

Setembro chegou trazendo com ele mais uma vez a transição da fase verde para fase a seca na região do semiárido Nordestino. Mais dois meses e tudo estará seco, esturricado, a menos que, como se repete há cinco anos, ocorra a chuva das flores no final de outubro e início de novembro.  Depois disso o nordestino “Apela pra Março, Que é o mês preferido, Do santo querido Senhor São José, Meu Deus, meu Deus, Mas nada de chuva, Tá tudo sem jeito, Lhe foge do peito O resto da fé, Ai, ai, ai, ai”. (Luiz Gonzaga).

A raiz da árvore, acima, saciava a fome do nordestino faminto nas grandes secas como a de 1932.

Vamos rezar para que este fenômeno não se repita no próximo ano, caso contrário a vida vai ficar difícil também para quem se dedica à Agricultura irrigada no Lago de Itaparica.

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A beleza do meu Beija Flor

Petrolândia, 23 de agosto de 2015
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“Vários Beija Flores visitam diariamente o Jardim do Sítio Campinho, mas há um que se destaca dos demais nem tanto pela beleza física, mas pela forma como chega, e se vai; Pela suavidade como suga deliciosamente o néctar das flores. Um dia lhe perguntei: Por que não vem todos os dias? Ele respondeu: Se eu ficar apenas no seu jardim os demais sentirão a minha falta. Sou como o sol e a lua: Tenho que brilhar para todos. Amo a liberdade. Peço que me entenda: Tendo que ser de todos, não sou de ninguém”. (Paulo Campos, 2015, Viajando em busca de mim mesmo)

PETROLÂNDIA: AUDIÊNCIA PÚBLICA SOBRE LICENCIAMENTO AMBIENTAL

audienciapublicaPetrolândia 28 de janeiro de 2015

Aconteceu ontem no Velho Chico (27/01/15) uma audiência pública onde foi discutido o licenciamento ambiental da linha de transmissão que interligará 23 municípios. A nova linha sairá da subestação de São João do Piauí até a cidade de Petrolândia (PE). O evento foi promovido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e empresa ATE XIX Transmissora de Energia. Houve participação efetiva da população local especialmente daqueles que direta ou indiretamente sofrerão os impactos positivos e negativos da referida linha. Representantes de comunidades indígenas e quilombolas estiveram presentes. A boa notícia para Petrolândia é que o empreendimento irá gerar cerca de 400 empregos diretos a começar ainda este ano. Os representantes do IBAMA e ATE XIX estão de parabéns. A equipe formada por pessoas jovens demonstrou que são profundos conhecedores da nossa flora e fauna e das características sócio econômico ambientais da nossa região.

Fiquei feliz em saber através de um biólogo do grupo que a rainha da nossa fauna, a Casaca de Couro, não sofrerá com os impactos ambientais a serem causados pela LT. De qualquer forma, deixo aqui registrado o que esta ave vem fazendo no Projeto Icó Mandantes em função do seu inconformismo com os serviços públicos ali prestados. Fiquem, portanto, vocês também atentos, pois se o sistema implantado falhar ela assumira o comando com muita eficiência. Leiam no link abaixo:
Centro de Monitoramento do Sistema de Irrigação do Projeto Icó Mandantes:

Mais sobre a casaca de Couro:

Ninho de Casaca de Couro: Obra Prima arquitetônica da fauna do semi-árido nordestino

Centro de monitoramento do sistema de irrigação do projeto Icó Mandantes

Petrolândia 19 de fevereiro de 2013

Há cerca de oito meses a rainha da fauna do semiárido nordestino começou a construir o Centro de monitoramento do sistema de irrigação do projeto Icó Mandantes. Exatamente na rede de alta tensão que leva energia elétrica às estações de bombeamento 03, 04 e 05 do Bloco 04 do Projeto Icó Mandantes, Petrolândia Pernambuco.

Já está em pleno funcionamento. Daí ela monitora tudo. Está bem à margem da estrada que dar acesso ao projeto Icó Mandantes. Envia aos órgãos do governo, em tempo real via internet, todas as informações sobre a produção agrícola do projeto, pois é por aqui que se dá o escoamento. Os políticos nem precisam mais implantar o balanção prometido há anos aos produtores. Quando o caminhão entra para o projeto fica registrada a placa e o peso do carro. Quando sai identifica o produto recalcula o peso e envia as informações para o comprador e produtor, tudo em tempo real. Se passar maconha comunica imediatamente à Polícia. É possível que a tecnologia 4G tenha sido inspirada na análise da forma de comunicação da Casaca de couro. A cada 200 metros, no máximo, há um ninho de casaca de Couro ao longo de toda estrada até chegar às roças produtoras. Assim através do seu canto elas enviam informações que circulam a uma velocidade impressionante. (Clique aqui para ouvir o canto da Casaca de Couro: )

Como há mais de um ano não chove por aqui a tecnologia eletrônica da Casaca de Couro ainda não foi testada na prática, pois em poucos minutos de chuva a qualquer descarga elétrica (raio) todo sistema elétrico deverá ser desligado automaticamente queimando e desalinhando as bombas de elevação da água. Quem pagará a conta e quem ganhará? A CELPE, a CHESF, A CODEVASF, o produtor ou a Casaca de Couro? Pense nisso.

Clique aqui para ver a exata localização desta foto

A Moto e o Jumento

Petrolândia 15 de março de 2012 

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Eu andava, tranquilamente, fazendo mototerapia lá pras bandas do Sobrado, quando encontrei esses velhos companheiros de outrora ou como diz Luiz Gonzaga: nosso irmão. Companheiros de um tempo em que o tempo não contava. Um tempo em que a velocidade não tinha importância alguma. Um tempo em que todos, ao andar devagar, caminhavam ouvindo os sons da mata: o som das flores se abrindo, o som das catingueiras bebendo o orvalho da manhã. De repente um deles olha para mim, torce o rabo, liga as antenas, sintoniza na frequência do meu pensamento e dispara:
-Se não me faia a memória estou conhecendo vosmicê seu caba da peste. Vosmicê não é aquele que nos anos de mil e novecentos e antigamente eu carregava no lombo levando para a escola?
-Sim amigo sou eu mesmo.
-Vosmicê não tem vergonia? Mesmo depois de véio fez como os outros, me trocou pela moto? Lembra dos velhos tempos quando eu levava vosmicê no lombo tocando outros jumentos, carregados de melancia no caçuá, do Limão Bravo até a feira de Barreiras?

-Ora meu amigo, lembro de tudo isso. Mas naquela época nós saíamos daqui no sábado à tarde para chegar à feira de Barreiras no domingo bem cedinho. Quinze horas de viagem para ir e mais quinze para voltar. Hoje esse percurso nós fazemos de carro ou de moto em apenas 30 minutos.
-Siná dos tempos. Mas naquela época quando eu me espantava vosmicê às vezes caía, e foram muitas quedas, mas vosmicê nunca sofreu nada grave, mesmo quando tava chei de mé. Essa sua máquina fotográfica já registrou todas as capelinhas existentes na beira da estrada relembrando os que faleceram? Elas não relembram os jumentos que foram atropelados por motos ou carros. Relembram seus amigos que morreram em acidentes de moto. Só nos últimos anos vosmicê perdeu 8 amigos entre 15 e 25 anos de idade, aqui no Icó Mandantes. E toda semana pelo menos um é levado, todo arrebentado, de ambulância para os hospitais de Petrolândia, Caruaru ou Recife.
-É isso aí, sabe que eu nunca tinha pensado nisso? hoje não temos tempo nem para refletir sobre essas coisas.
-Tudo bem continue aí fazendo sua mototerapia, mas dê um recado a seus amigos humanos que de tão preocupados com a velocidade não perceberam que tornaram-se desumanos com a natureza e com nóis seus irmãos nos velhos tempos: Que lembrem, como Luiz Gonzaga, que nóis fumo o maior instrumento de desenvolvimento do Sertão. Ajudamos vosmicês na lida diária, que um dia ajudamos o Brasil a se desenvolver. Arrastamos lenha, madeira, pedra, cal, cimento, tijolo, telha. Fizemos açude, estrada de rodagem. Carregamos água pra casa de vosmicês. Fizemos a feira em cima de montaria. Que lembrem que já servimos até de transporte pra Nosso Senhor quando ele ia para o Egito. Não esqueça de dizer aos seus amigos desse tá de facebook pra botarem fotos das antigas feiras de Petrolândia e Barreiras. Aí vosmicês vão relembrar que só existia estacionamento pra cavalo, burro e jumento. Automove? Só os caminhões de seu Né de Tacaratu e Zé da Cruz de Petrolândia, que faziam as feiras de Tacaratu, Petrolândia, Floresta e Barreiras. Quanta diferença em?
-Vou dar o recado direitinho. Vocês ainda vão ser muito úteis por aqui. Tem muito turista por esse mundão afora querendo andar de jumento pelas trilhas da Reserva Legal do Projeto Icó Mandantes. Vou até sugerir que seja criado uma modalidade turística com o seguinte slogan: jumentoterapia nas trilhas do Projeto Icó Mandantes. 

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