A beleza do meu Beija Flor

Petrolândia, 23 de agosto de 2015
PapolaBeijaFlor

 

 

“Vários Beija Flores visitam diariamente o Jardim do Sítio Campinho, mas há um que se destaca dos demais nem tanto pela beleza física, mas pela forma como chega, e se vai; Pela suavidade como suga deliciosamente o néctar das flores. Um dia lhe perguntei: Por que não vem todos os dias? Ele respondeu: Se eu ficar apenas no seu jardim os demais sentirão a minha falta. Sou como o sol e a lua: Tenho que brilhar para todos. Amo a liberdade. Peço que me entenda: Tendo que ser de todos, não sou de ninguém”. (Paulo Campos, 2015, Viajando em busca de mim mesmo)

CABEÇA VAZIA É OFICINA DO DIABO (Entendendo o discurso do Vereador Eudes)

Petrolândia 05 de maio de 2015

O objetivo desta matéria é tentar entender ou fazer entender o significado do termo “cabeça vazia” utilizado pelo Vereador Eudes Fonseca na sessão plenária na câmara de vereadores de Petrolândia realizada em 29/04/2015: “…uma indicação na qual eu solicitei ao gestor municipal a abertura de uma casa da juventude para o projeto Icó Mandantes na qual como justificativa lá nós temos vários jovens, alguns talvez com a cabeça um pouco vazia e outros talvez por falta de oportunidade … para dar assistência ao jovens para que eles possam desenvolver suas práticas e desempenhar alguma atividade ligada ao agronegócio…” (Extraído do áudio publicado no Petrolândia notícias) 

O titulo desta matéria é um provérbio e como tal facilmente reconhecível e memorizado embora na concepção popular assuma vários significados que são interpretados de acordo com a situação social, emocional de quem emite e de quem ouve. Cabeça vazia significa, no entendimento mais usual, pessoas desocupadas, sem trabalho, sem metas a seguir. Se foi isto que o Nobre Vereador Eudes quis dizer eu diria que no Icó Mandantes não tem apenas alguns de cabeças vazias, tem centenas, e nos próximos dez anos serão milhares. Na primeira década do reassentamento existiam no Icó Mandantes alguns jovens de cabeça vazia e o diabo soube como aproveitar para nelas construir a sua oficina. Entenda aqui: (O Projeto Icó Mandantes de Petrolândia Pernambuco ontem hoje e amanhã) Não será, agora, que uma Casa da Juventude idealizada e construída para alguns, sem comunicação e ou interligação com todo o sistema que fomenta as políticas públicas do nosso município que vai resolver o problema. Quem vem produzindo essas cabeças vazias é o sistema de ensino que nos últimos anos está abaixo dos limites aceitáveis para uma região que produz riqueza e uma população de mais de sete mil habitantes.

Em fim não adianta inventar a roda. Melhor lê o que Graciliano Ramos escreveu há em 1936, portanto há 79 anos: ANGÚSTIA, o romance mais rico em todos os sentidos que ele escreveu. Sugiro aos professores do ensino médio especialmente do Icó Mandantes que distribuam com seus alunos o texto abaixo e peçam que eles respondam as seguintes perguntas:

1-Existe diferença entre a situação politica e social identificada por Graciliano Ramos há 79 anos?
2-Por quê Marina era considerada uma pessoa de cabeça vazia?

PESADELO QUE NÃO ACABA

“Um crime, uma ação boa dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos”, pensa Luís da Silva, narrador de Angústia, modesto funcionário público. Se vivesse hoje, mais de 60 anos depois, sua situação seria a mesma ou pior. De lá para cá, alguns indicadores sociais melhoraram, mas outros vícios, como a corrupção e a falência dos costumes, agravaram-se.

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Robert H. Heilman observa, a propósito da Tess de Hardy: “Nossos egos estão ligados às nossas idéias; querem que os fatos se ajustem às idéias, do contrário nos ofendemos e tendemos, se tivermos poder para tanto, a nos tornar punitivos”. Pois bem: a punição, em primeira etapa, vai para Luís da Silva, e este se humilha mais para sofrer mais, para purgar. Depois, com o aparecimento de Marina, os fados oferecem-lhe breve trégua. No seu romance de fundo de quintal com Marina – quintais cheios de lixo e plantações mesquinhas, onde um homem carrancudo e uma mulher triste trabalham com pipas e dornas -, Luís tem a impressão de descobrir o amor, quando está atraído pelo erotismo e Marina anseia apenas em sair da pobreza absoluta. De qualquer modo, é a felicidade: ele está relativamente tranqüilo, tem uns três contos de réis de economias, deseja casar-se. A idéia de casamento precipita a tragédia pessoal banhada pela tragédia social. Moça estouvada, de cabeça vazia, pensando em ostentações, Marina consome num ápice as suadas economias de Luís no enxoval e, em pleno “noivado”, aceita a corte de um estranho, Julião Tavares, um parasita de discurso empolado e arrogância pavonácea. Tavares é o resumo de tudo quanto oprime Luís: dinheiro fácil, berço de ouro, prestígio social, mediocridade intelectual, poder de corromper e safar-se ileso. Gordo, cínico e esperto, Julião Tavares invade a casa de Luís, seduz Marina e distancia-se quando ela ostenta sinais de gravidez. A família submete-se: nenhuma queixa, apenas resmungos. Os humildes aprendem a vergar a espinha sob o peso dos opressores. O sedutor lança-se à conquista fácil de outras meninas pobres.

Mas o narrador de Angústia, espezinhado, traumatizado, esbulhado pela vida – este reage. É que o sofrimento atinge o ponto da exasperação, ele tem as comportas cheias de água estagnada. A fúria que antes o devastava se dirige ao opressor. Ele não tem, como Moisés, coragem de pichar muros, de distribuir “folhetos incendiários”. Mas o Presidente dos Imortais lhe põe nas mãos o instrumento da vingança – uma corda. A essa altura o monólogo de Luís da Silva – o fluxo “objetivo” do inconsciente, ou seja, a linguagem da ação – se transforma em delírio. Imagens se atropelam: o cano de água é uma corda, a gravata enrola-se como corda, a cobra em volta do pescoço de Trajano é corda viva. O narrador vê-se compelido a matar Julião Tavares após a verificação de que Marina, grávida, procura parteira clandestina. No capítulo final as referências ao passado se aglomeram. É um entrechoque de lembranças. As imagens trágicas do meio rural e da vida urbana de Luís se juntam para entoar o coro da tragédia. Início e fim do romance se fecham quais pontas de um leque. Angústia é um pesadelo contínuo. O narrador pergunta: “Haverá dentro de 20 anos criaturas assim que, tendo corrido mundo, se resignam a viver num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, respirando podridões, desejando um pedaço de carne viciada?” Sim, e em condições ainda piores. (Texto extraído do Portal São Francisco) 

De Jatobá A Petrolândia – Três nomes, uma cidade, um povo – Gilberto Menezes

Livro de Gilberto Menezes

Livro de Gilberto Menezes

Petrolândia 24 de novembro de 2014

Comprei ontem, na LUMIAR, o livro do Professor Gilberto de Menezes “De Jatobá A Petrolândia – Três nomes, uma cidade, um povo”. Acabo de devorá suas 287 páginas em uma só sentada. Excelente fonte de pesquisa. Estilo literário impecável. A história de Petrolândia escrita com lucidez e inteligência. Parabéns Professor Gilberto.

Acrescento, como complemento, a este valioso documento histórico, algumas linhas sobre uma região que sempre foi esquecida: O Icó Mandantes que hoje esbanja prosperidade e produz alimentos não apenas para Petrolândia, mas para todo o Brasil através de sua agricultura familiar irrigada pelas águas do Lago de Itaparica. O Bloco 3 onde se localizam as agrovilas de 1 a liarosa10. Há 150 anos chamava-se DESERTO DOS CAMPINHOS. O próprio nome conduz nosso imaginário a pensar nas dificuldades do povo humilde que ali chegou para povoá-lo. Foi o local onde nasci em 1947. Nos anos de seca tínhamos dificuldades para encontrar água e alimentos. Foi no saudoso Icó citado no referido livro onde conheci uma escola pela primeira vez aos 11 anos mantida pelo DNOCS. Aqui a minha homenagem à querida educadora linda, inteligente, comprometida, Dona Lia Rosa de Floresta do Navio formada no Colégio de Freiras Cristo Rei em Recife. Foi minha professora no ensino primário. “Que saudade da professorinha, que me ensinou o bê a bá” (Ataufo Alves).

O mapa da região apresentado acima faz parte do acervo da Biblioteca Central da Universidade de Humboldt em Berlim na Alemanha registrado em 1860, portanto há 154 anos. A pedido me foi gentilmente enviado pela Professora da referida Universidade Marianna Siegmund Shultze.

O Icó Mandantes há 150 anos

O Icó Mandantes há 150 anos

A vida: Um caminho sem volta

Petrolândia 06 de agosto de 2014

Serra do Papagaio, Icó Mandantes, Petrolândia, PE

Serra do Papagaio, Icó Mandantes, Petrolândia, PE

“A vida é um caminho sem volta, embora muitas vezes seja necessário construir novos sonhos, novas fantasias, novos projetos de vida. Nunca, nunca mesmo, nessa caminhada, devemos recorrer à falsidade, à hipocrisia, para denegrir a dignidade, a honra, de ninguém, a fim de usufruirmos benefícios qualquer que tenha sido a motivação. Nessa estrada da vida só não vence as turbulências quem semeia vento”. (Paulo Campos, 2014). O maior teólogo e filósofo do cristianismo Santo Agostinho nos ensina: “Uma virtude simulada é uma impiedade duplicada: à malícia une-se a falsidade”

Caminhos que me conduzem a felicidade

Petrolândia 02 de agosto de 2014

familiapcampos“Um dia depois de uma longa e árdua caminhada parei em frente ao meu eu e perguntei: Quem sou eu? Ele respondeu: Você é o que você é e aquilo que os outros pensam que você é. Se o que alguns pensam de você não é o que você é continue sendo o que você é. Continue Inventando sonhos, inventando objetivos, metas e estratégias para alcançá-los, mas saiba de uma coisa: Se os seus sonhos se tornarem realidade, invente novos sonhos, novos objetivos, novas metas e estratégias. Muitas vezes vai ser necessário voltar e refazer tudo novamente. O que você não deve fazer nessa caminhada em busca da felicidade, é inventar estratégias que coloquem pedras na trilha dos seus semelhantes, pois você pode tropeçar numa delas no caminho de volta”. (Paulo Campos, 2014, Viajando em busca de mim mesmo).

Pega de Boi no Mato – Fazenda Poço da Onça – Lembranças da Chapada

Afonso José da Silva e Maria Antônia

Afonso José da Silva e Maria Antônia

Petrolândia 23 de outubro de 2013

Maio de 2005. Meu tio avô e padrinho Afonso José da Silva, carinhosamente chamado de Tió, chega pra mim e diz:

– Quero fazer uma visita a minha prima e grande amiga Maria Antônia na Agrovila 2 dos Mandantes. Você me leva?

– Claro Tió.

Eu não podia perder a oportunidade de registrar o diálogo entre estes dois heróis nordestinos, fonte primária da memória viva vivida ora com alegria nos anos de chuva e fartura no Sertão Pernambucano, ora sofrida nos tempos de seca. Ele com 93 anos. Ela com 103. Ambos com uma lucidez impressionante. Estatisticamente já estariam mortos há mais de 50 anos. E assim fomos lá. No caminho ele me diz:

tiotonha02– Quando chegar lá aprochegue o carro na frente da porta e saia de perto pra ela não ver você.

– Sim senhor.

Eu logo imaginei o que ele ia fazer. Estacionei o carro e fiquei não muito longe observando.

-Ô de casa diz ele apoiado no portão do muro.

– Ô de fora. Quem é que má pregunte?

Responde, na bucha, Mãe Tonha aproximando-se da porta apoiando-se numa bengala. Mãe Tonha: É assim que ela era conhecida pelos amigos e parentes.tiotonha03

– Depois que ficou rica não conhece mais os amigos?

– Oxente? Será que tô vendo visage? É Cumpade Afonso?

– Sou eu sim. Vim tomar um café torrado em casa com rapadura e pisado no pilão como nos veios tempos.

– Veio com quem? Vim só. Óia aí a minha fubica. Pensei em vim de moto mais meus fios pediram para eu vim no meu cadilak. Fiz como os moços: Troquei o jumento pela moto. Cavalo só nas vaquejadas.

– Não mudou nada estrupiço. Continua com as mesmas presepadas.

– Se aproxegue. Vão se achegando. Se abanque que vou fazer um café bem forte.

tiotonha04Foram duas horas de prosa prazerosa. Mais de noventa anos revividos em poucas horas. Conversa vai, conversa vem, ela olha pra mim, adivinha o que eu quero perguntar e diz:

– Meu fio hoje aqui tá um céu. Todo mundo tem o que cumê, faça chuva faça sol. Na seca de 32 vi muita gente morrer de fome. O povo desse lugar comeu até macambira e raiz de pau de ema. Era retirante pra todo lado. Tinha umas frente de trabaio inventada pelo governo que ajudava em alguma coisa.

tiotonha05– Tá caducando cumade. Essas frentes só servia pra quem não precisava. Pobre que não sabia ler só servia pra morrer pro que não votava. E era quase tudo. Quanto mais pobre morto mior pus omi do pudê que aí eles ganhavam de dois lados: Se livravam de retirante e ganhava mais dinheiro com caixão de defunto. Tinha uns tal de poço artesiano mas só furavam nas fazendas dos ricos e dos políticos. Isso que o povo tem aqui hoje não foi o governo que deu não, foi os pobres que arrebanhados pelo sindicato se juntaram e tomaram conta da barragem. Ou o governo dava ou a barrage nunca terminava. Tinha uma tal de pastorá da terra e fetape que era a mulesta dos cachorro doido.

– Lá vem uncê com conversa de cumunista. Num venha dizer que num recebeu algum favorzinho quando foi suplente de vereador de Petrolândia nos anos 50.

– Vamos mudar o rumo da conversa?
– Bem pensado. Você já contou suas presepadas pro seu afiado?

– Contei muitas. Ele passa o dia todo me atazanando pra eu contar como o povo daqui vivia nos véios tempos.

– Contou a do “Boi do Poço da Onça”?

– Êta que essa eu nem alembrava mais.

– Então cumpadre conte agora o que foi que vosmicê aprontou com seus amigos vaqueiros.

tiotonha06– Não me alembro do ano. Só sei que era de muita fartura. Cumpade Fulô cunhado de cumpade Dandão seu pai, tinha um boi que era os pés da bêsta. Quando ainda garrote ele colocou um chocalho e sortou no mato. Foi crescendo, crescendo e o lato apertando. Ele tentou pegar várias vezes e nada. O bicho era um verdadeiro estrupiço. Era o cão em figura de boi. Ontosse ofereceu um prêmio aos vaqueiros da região. Um conto de réis a quem trouxesse o lato e o chocalho. E haja vaqueiro atrás do bicho. Mas ele sumia nas catingueiras feito caipora e o cavalo voltava estrupiado. E a notícia correu: Da Várzea Redonda ao Sobrado, do Icó aos Mandantes não se falava noutra coisa. Um dia eu saí pra campeá no meu alazão. Lembro como se fosse hoje. Lá pras banda do serrote dos campinhos dei de cara com o danado. Tava com uns 30 metros de distança. Oia pra mim, funga, cisca o chão com as patas, torce o rabo se vira e dispara. Deitei no lombo do alazão, preguei as esporas e saímos derrubando as catingueira, macambira, mandacaru, tudo que encontrava pela frente. Chego do lado, agarro no rabo do bicho e ele já ressabiado se vira. Não tive dúvida: Pulei nas pontas do bicho por cima do cangote e derrubei. Ligeiro como quem rouba puxei a peixeira e cortei o lato. Montei no alazão e vortei pra casa matutando. Ôiei pra trás. Ele parecia agradecer o que fiz balançando o rabo. Cheguei em casa, na Chapada, desapiei e coloquei o lato com o chocalho impindurado no pé de Tamarindo. Um dia de feira em Barreira, encontro com cumpade Fulô. Entramos na budega de Gersininho e começamos a jogar conversa fora em meio a várias bicadas da cahaça de Mané Dedé. Prosa vai, prosa vem como quem quer e não quer nada e fui direto aos finalmente: Cumpade que má pregunte já pegaram o boi?

tiotonha07– Que nada cumpade. Vai terminar morrendo inforcado.
– Eu tenho uma astúcia pra pegar o bicho.
– Qui astúcia é essa cumpade?
– Só conto quando tiver todos vaqueiros juntos.

– Então cumpade, no dia da São João, mês que vem, eu vou fazer uma taipa na minha casa. Vou convidar todo mundo da região para me ajudar. De noite cumpade Cândio vai com sua pé de bode tocar forró pra gente dançar na latada com luz de candeeiro até pegar o sol com a mão. Vai ser do jeito que o diabo gosta. Vosmicê aproveita e diz qual é a sua astúcia. Mas tem que dizer antes de começarem a tomar a cachaça de Mané Dedé de Tacaratú.

– Bem pensado. Não deixe de convidar os miores vaqueiros inclusive cumpade Nô de Delmino. Não dizem que ele é o mior? Não esqueça de convidar também os home que tem as fias donzelas mais bonitas da região.

– Não se apoquente cumpade, quer ensinar padre nosso a vigário? Disso eu entendo.

– É, entende. Entende até de paçoca de amendoim…

– Cumpade vosmicê me respeite. Eu acho que a história paçoca de amendoim foi invenção do cumpade.

tiotonha08– Quando foi no dia de São João logo cedo só via era gente passar na estrada para o Poço da Onça. Até Cândio, o tocador de Pé de Bode foi ajudar na taipa da casa. Eu não fui, mandei dizer por cumpade Lilinho que estava com dor de barriga. Quando o sol tava perto de se pôr, me granfinei, selei o cavalo, peguei o lato e o chocalho e finquei pé na estrada do Poço da Onça. Quando cheguei já estava tudo escuro. Amarrei o cavalo perto da estrada num imbuzeiro e andei a pé por dentro das catingueira, marmeleiro e peão. Andava bem devagar como se tivesse procurando com os pés penico no escuro. Quando tava bem perto do terreiro me agachei numa moita de pereiro. Só ouvia o furdunço lá pra dentro. Já tinham terminado a taipa da casa e as muier jogava água no chão da latada para começar o forró. Cumpade fulô tentava acender a fogueira. Peguei o chocalho e balancei forte. De repente aquele silêncio.

– Você escutou alguma coisa Fulô, pregunta sua muié Lindaura.

– Escutei mas num pode ser, num acredito.

– Balancei mais forte como se o boi tivesse deitado sacudindo musquito. Tornei a balançar. Aí foi aquele fuá, corre gente pra lá, corre gente pra cá. Cumpadre Fulô grita:

– Lindaura corre e vai abrir a porteira do curral. Vamos cercar e botar o danado prá dentro.

– Cercaram lá por fora berando a estrada. Não me apoquentei. Começaram a jogar pedra até que uma passou riscando meu páu da venta. Não tive dúvida, corrir pra dentro do curral com o chocalho tocando.

– Apois num é que o bicho entrou no curral? Grita cumpadre Binô.

– Cumpadre fulô, pra não pagar o conto de réis corre fecha a porteira do curral passa a tramela e diz: – Vocês vieram aqui pra beber e farrar ou pegar boi. Toca o fole cumpade Cândio. Todo mundo pra casa e arrasta o pé no chão. Amanhã agente vê o boi. Todas as donzelas deve alembrar que na minha casa muié não corta ninguém.

– O Forró começa enquanto cumpade Fulô acende a fugueira. Aí pulei a cerca e sair de mansinho inté onde tava o cavalo. Muntei, juntei as esporas e risquei na beira da latada. Puxei a rédea e o alazão ficou quase impé. Desapiei fui pro meio da latada e gritei:

– Peguei a fera. Taqui o lato e o chocalho. Passe pra cá o conto de réis cumpade Fulô.

– Que conversa é essa cumpade Afonso. O boi tá no Cural. Esse chucalho aí deve ser mais uma de suas tapias.

– Cumpade você acha que sou home de tapiá ninguém? Quer me desmoralizar no meio de todo mundo? Me arrespeite

– Vamos ao curral tirar a prova diz Mané Guilhermina.

– Pegaram os paus da fugueira pra alumiar e correram pro cural.

– Não abram a porteira pro boi não fugir grita cumadre Lindaura.

– Todo mundo entrou no curral: home, muié, menino, cachorro, gato,papagaio. Procuraram e nada, nem rasto. Cumpade fulô grita: – será que era o demônio? Só pode ser o laço do cão.

– Se foi coisa do demônio eu não quero saber, quero o conto de réis prometido. Quer me engabelar?

– Cumpade eu pago mas primeiro conte como foi que vosmicê pegou esse boi.

– Fui pro meio da latada e ao redor de mim tudo que era de vaqueiro famoso: os cumpades Nô de Delmino, Binô, Vininho, Aderso, Né, Pedro Soares, Mané Guilhermina, Pedro de Joana, João Soare, Lero, Fulô de Diolino, Messia, Hortenso, Pedro de Chico Moço, Anibra, Teodoro, Cisso Coelho, Elói de Macaro, João Florentino, Celso, João felix e também alguns franguinhos metidos a vaqueiros: Agamenon, Atanásio, Pedro Alves, Luiz Preto, Dandão, Zé Pequeno, Nozinho da lagoa da Areia, Jaime, Manoca e as donzelas mais bonitas da região. Olhei prum lado e pro outro dei uma chicotada no frexá da latada e escangaei:

– Tava a caminho daqui no meio da tarde quando na baixa de Mila dei de cara com o bicho. Me arrepiei todo. Do quengo ao mocotó. Não tive dúvida, drobei o cavalo e vortei troitando pra casa. Botei a perneira o gibão e o chapéu de couro. Peguei a estrada de novo. Quando cheguei na baixa de Mila sair rastejando até que dei de cara com o estrupiço. Ele olhou pra mim, fungou, jogou terra prá trás com as duas patas se virou, torceu o rabo e disparou em direção ao papagaio. Aí cumpade Agamenom que ainda era aprendiz de vaqueiro diz:

– É desse jeito mesmo que ele faz. Depois desaparece feito visage.

– Deitei na sela, preguei as esporas no alazão, e o tempo fechou. Quebra pau pra cá quebra pau prá lá até o boi dá de frente com um imbuzeiro fechado e não arrisca. Finca as patas, senta o rabo no chão e se vira. Não tive dúvida: Do jeito que vinha pulei no cangote do bicho segurando nos chifres. Aí compadres ele deu um rapapé prá cima tão danado que fui cair sentado em cima do imbuzeiro. Apôis o estrupiço em vez de correr ficou oiando pra eu com uma cara que parecia que tava vendo o satanás.

– Vige meu padim padim Ciço. Isso não é boi não, é o satanás mermo diz cumpade Conrrada.

– Mas eu não me amofinei. Se eu não fosse muito macho tinha mijado nas calças. Não cochilei: Vuei e cair de novo em cima do chifre do bicho. O baque foi tão grande que ele enfiou o fucinho no chão e caiu dos quartos. Puxei a pexeira e cortei o lato. Ele deu de novo outro rapapé tão ispritado que eu vuei e cair montado no alazão. Preguei as esporas e fui pra casa. Tomei um banho no poço, botei a melhor roupa: um paletó de gasimira branco, passei perfume dorli e vim receber meu conto de réis pra gastar com presentes pras minhas admiradoras. Olhei para os lados tava todo mundo de queixo caído oaindo uns pros outros. Aí minha sobrinha cumade Agarina grita de lá:

– Tavendo meu vei, esse sim é que é vaqueiro.

– Como eu não sou atroado não deixei cumpade Nô arresponder se não a vaca ia pro brejo: Puxa o fole cumpade Cândio e vamos dançar até pegar o sol com a mão. Agarrei uma pelos quartos que a pueira cubriu. Tudo que era de moça só queria dançar comigo. Com o conto de réis paguei cachaça de Mané Dedé a noite toda pra todo mundo até amanhecer. Até os cavalos amanheceram bêbados, menos eu que não sou idiota. Eu ia deixar de dar asistença a muierada.

– Vôte cumpadre, eu só conhecia essa história até quando o boi entrou no curral. Isso não é qualidade de gente. Quanto mais fica véio pior fica.

OBS:
1-O Episódio do boi de fato aconteceu. A história é real até a entrada do boi no curral e conhecida de toda população contemporânea aos dois personagens. A partir daí é ficção inspirada em muitas histórias que ele contava.
2-Maria Antônia (Mãe Tonha) faleceu em 2009 aos 107 anos de idade.
3-Afonso José da Silva (Tió) faleceu em 2011 aos 99 anos.

A Presidente Dilma, Eduardo Campos e Aécio Neves no Icó Mandantes

Petrolândia 11 de outubro de 2013

Sol de rachar. Deitei na rede à sombra do velho amigo Juazeiro. Comecei a curtir o balé dos urubus no horizonte cinzento nos seus treinamentos diários preparando-se para fazer a limpeza da sujeira deixada pelos políticos que anos a fio torcem por momentos de secas como estes que deixam os pobres cada vez mais pobres e eles cada vez mais ricos e corruptos. Começo a cochilar quando de repente surge um helicóptero na copa dos eucaliptos do Sítio Campinho e como num passe de mágica aterrissa.

Será que descobriram maconha no meu pedaço? Desço da rede e por trás da catingueira arrisco um olho. A porta da nave se abre e de lá desce uma mulher elegante, deslumbrante e mais risonha que o povo na fila do banco em dia de pagamento do bolsa família.

– Vim constatar com meus próprios olhos o que foi que o afilhado do Eduardo andou fazendo nas obras da transposição e aí dei uma esticadinha até aqui para dizer que dou total apoio ao projeto “Jovem Empreendedor…

Não consegue terminar de falar com o barulho estarrecedor de outro helicóptero. Aterrissa e de lá sai um Jovem de olhos azuis e mais bem vestido que cabo eleitoral no Nordeste em dia de eleição.

– Bom dia Presidente. Vim confirmar o que fizemos na transposição e não poderia voltar sem dar um pulinho até o Sítio Campinho para dizer que apoio o projeto Jovem Empreendedor da Agroindústria Familiar…

Mais um helicóptero. De lá sai mais um jovem elegante, sorridente com jeito de quem come quieto, astuto e uma inteligência ímpar.

– Também estou vindo lá da transposição e lhes digo: Vi, ouvi, senti e percebi tudo. Vamos conversar?

Também vir aqui dizer que dou total apoio ao projeto Jovem “Empreendedor da Agroindústria Familiar do Icó Mandantes”. Esse sim vai ensinar o povo a pescar.

Conversa vai, conversa vem convidei-os para comer um pirão de bode quando um jumento nosso irmão, considerado por Luiz Gonzaga como o maior desenvolvimentista do sertão me acorda anunciando o meio dia.

OBS: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência

A EDUCAÇÃO E O TEMPO

 Petrolândia 02 de junho de 2013

Mais um motivo para eu continuar tentando encontrar a velha CARTA DE ABC. Aquela que alfabetizava os pobres e que me introduziu, aos 11 anos, no mundo letrado. Não sei se letrado analfabeto ou analfabeto letrado.

A cartilha no formato de livreto de cordel que Graciliano Ramos classificou como livreto de papel ordinário: “Meu pai tentou avivar-me a curiosidade valorizando com energia as linhas mal impressas, falhadas, antipáticas. Afirmou que as pessoas familiarizadas com elas dispunham de armas terríveis. Isto me pareceu absurdo: os traços insignificantes não tinham feição perigosa de armas”. (Graciliano Ramos).

Mas se um filho de classe média nordestina, que foi Escritor Famoso, Prefeito, Professor, Diretor de Imprensa Oficial, Diretor de Instrução Pública não conseguiu enxergar, naquele momento, as “armas terríveis” daquela Carta de ABC o mesmo não aconteceu com o Rei do Cangaço. Foi com ela que Lampião aprendeu, em apenas 90 dias, a ler e escrever. Ao ser alfabetizado, em 1907, demonstrou que estava 100 anos a sua frente, pois me dá a impressão que foi ele o percussor da escrita utilizada, hoje, pela maioria dos usuários do Facebook. E tem mais: Aprendeu a entender o que lia. É possível que ele tenha seguido o conselho que a cartilha ensinava na última lição e última frase: “A fome dá ao pobre o direito sagrado de importunar o rico.”. Veja a carta que ele escreveu a um fazendeiro de Floresta-PE.

lampiao

(“Ilmo. Sr Cantidiano Valgueiro,

Eu (ou “le”) faço esta para “vc” mandar-me dois “conto dereis”, isto sem falta, não tem menos, para “vc” saber se assinar em telegrama contra mim como “vc” se assinou em um com “Gome” Jurubeba. Eu ví e ainda hoje tenho ele. Sem mais, resposte logo para “envitar” muito prejuízo. Sem mais assunto. Cap. Virgulino ferreira Lampião. [sic]” 5.

Os métodos pedagógicos que fizeram época foram de inegáveis resultados positivos: O sertanejo que se interessou, aprendeu a ler soletrando e cantando as 26 lições da famosa “Carta do ABC” de Landelino Rocha, que continha apenas 16 páginas. E da tabuada cantada ritmicamente em comum pela classe, com palmatória). Fonte: Lampião Analfabeto ? Opinião; por Kiko Monteiro 

Para finalizar leiam esta maravilha da literatura nordestina de Pedro Ernesto Filho:

AINDA TENHO GUARDADA MINHA CARTA DE ABC

Ela me faz recordar
a minha infância primeira,
Maria Gomes Pereira
professora do lugar,
que me mandava estudar
e eu não sabia o porquê,
pois criança não prevê
do futuro quase nada
– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Suas laudas têm clareza,
não possui palavra omissa,
no final, diz que a preguiça
é a chave da pobreza,
conserva ainda a beleza
pois quem observa vê
que entre os sinais A e Z
não há letra amarrotada

– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Até já mudou de cor
por ação que o tempo faz,
porém conserva os sinais
que expressam o seu valor,
na história de doutor
integra um só dossiê,
se alguém perguntar, cadê?
Também mostro a taboada
– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Com dez folhas dá abrigo
a todas letras maiúsculas;
logo em seguida, as minúsculas
feitas num formato antigo,
porém conservo comigo
para mostrar a você;
a capa um pouco fumê,
por dentro, bem conservada
– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Uma caneta luxenta
digna de ir ao museu,
que Crisantina me deu
em dezembro de setenta,
de preta ficou cinzenta
e o bico parece um tê,v mas quem botar tinta vê
riscar sem fazer zoadav – Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Olho tudo e me comovo
por força das emoções,
o livro Minhas Lições
ainda está quase novo;
aquela Cartilha o Povo,
alguém, querendo, inda lê,
tem formato de carnê
e a capa é toda ilustrada
– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Aquela prova bonita
em folhas grandes de almaço,
abaixo da nota, um traço;
na borda, um laço de fita,
hoje parece esquisita,
mas faz bem a quem revê,
nem por troca de cachê
eu a deixo abandonada
– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Meu livro de matemática
do autor Marcius Brandão,
Programa de Admissão
que tornou-me a vida prática,
também guardei a gramática
que hoje me faz mercê,
pois a aula da tevê
deixa uma dúvida danada
– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.
Pode alguém mangar de mim
porque tenho conservado
o caderno do ditado
e as notas do boletim,
todo poeta é assim
de louco possui um quê,
muito mais doido é você
que não se lembra de nada
– Ainda tenho guardada
minha Carta de ABC.

Fonte: AINDA TENHO GUARDADA MINHA CARTA DE ABC 

 

A Cacimba – Homenagem aos 109 anos de Zé da Luz

Petrolândia 02 de maio de 2013

Alguém se recorda ou ouviu falar destes locais que desapareceram do mapa depois da Barragem de Itaparica? Poço da Madeira, Olho D´água, Sítio Novo, Lagoa da Areia, Caraíba, Boa Vista, Icó, Lagoa do Icó, Lagoa do Cipó, Lagoa do Angico, Chapada, Poço da Onça, Campinho, Cachimbo?… A resposta positiva existe apenas para poucos que se preocupam em passar para os seus descendentes a sua história de vida vivida e convivida em convivência com os momentos de seca com muita luta e dificuldade nestes saudosos locais. Locais onde os laços de amizade, seriedade, respeito e a palavra empenhada eram ponto de honra e princípio ético aceito por todos sem discussão. Locais onde as pessoas eram valorizadas pela honestidade e capacidade de se solidarizar com o próximo e não pela capacidade de ostentar carro do ano e habilidade maquiavélica de enganar inocentes indefesos. Locais “das muié séria Dos homes trabaiador” (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

A juventude de hoje, que estuda e estudou nas escolas do Icó Mandantes poderia conhecer e valorizar mais o seu espaço e o seu passado se os gestores do nosso município, pós Barragem de Itaparica quisessem que o nosso povo construísse o seu futuro a partir do conhecimento do seu passado. “Quem não sabe de onde vem não sabe para onde vai e não sabendo para onde vai não chegará a lugar algum”. (Paulo Campos, 2010 – Viajando em Busca de Mim Mesmo)

Em quais desses locais existiam aquela famosa cacimba destinada exclusivamente para que as moças do local tomassem banho de cuia? Vocês sabiam que as águas dos riachos que tinham como nascente essas cacimbas tinham um gostinho saboroso diferente? Vocês sabiam que o mato desses locais tinha olho?

Para homenagear os 109 anos desse Paraibano arretado “Zé da Luz” não deixem de ler refletindo, abaixo, essa obra prima da literatura Nordestina. Essas cacimbas não existiam apenas na Itabaiana cidade da Paraíba de Zé da Luz. Existiam por aqui também. Muitas estão, hoje, submersas, purificando e deixando as águas do Lago de Itaparica com o “gostim do suó do suvaco das moça” donzela que habitavam a região do hoje Icó Mandantes.

A cacimba (Zé da Luz)

Tá vendo aquela cacimba
lá na bêra do riacho,
im riba da ribanceira,
qui fica, assim, pru dibáxo
de um pé de tamarinêra.

Pois, um magóte de môça
quage toda manhanzinha,
foima, assim, aquela tuia,
na bêra da cacimbinha
prá tumar banho de cuia.

Eu não sei pru quê razão,
as águas dessa nacente,
as águas que ali se vê,
tem um gosto diferente
das cacimbas de bêbê…

As águas da cacimbinha
tem um gôsto mais mió.
Nem sargada, nem insôça…
Tem um gostim do suó
do suvaco déssas môça…

Quando eu vejo éssa cacimba,
qui inspio a minha cara
e a cara torno a inspiá,
naquelas águas quiláras,
Pego logo a desejá…

… Desejo, prá quê negá?
Desejo ser um caçote,
cum dois óio dêsse tamanho
Prá ver aquele magóte
de môça tumando banho!

A Chuva em Petrolândia e o Balé dos Urubus

baleurubu01Petrolândia, 18 de abril de 2013

Chuva com muito trovão no Sítio Campinho ao amanhecer. Será que veio anunciar o início do Inverno? Aquela chuva fininha que vem e volta o dia todo associada àquele friozinho gostoso? Adoro ficar no jardim ou na roça trabalhando e curtindo o balé dos urubus no horizonte cinzento nos seus treinamentos diários preparando-se para fazer a limpeza da sujeira deixada pelos políticos que anos a fio torcem por momentos de secas como estes que deixam os pobres cada vez mais pobres e eles cada vez mais ricos e corruptos. Por um momento, confesso, pensei que fossem helicópteros da polícia federal dirigindo-se para Petrolândia.

baleurubu02

Se forem trovoadas, que venham logo e acabem de vez com o sofrimento e ingenuidade sincera e inofensiva da maioria do povo sertanejo principalmente o de Petrolândia que não sabe que não gostando de política passa a ser comandado pelos que gostam tornando-se, assim, eternos reféns de quem não têm compromisso social com o seu povo.

O Sertão Nordestino está precisando mais do que nunca desta trovoada para elevar o nível do Lago de Itaparica e a autoestima do povo de Petrolândia. Uma cidade antes banhada pelo Rio São Francisco, carinhosamente chamado de Velho Chico que foi embora em 1988 levando com ele a memória, a identidade e os laços sociais de amizade do nosso povo.

Mas esta trovoada pode está anunciando a chegada de bons tempos. Assim, Petrolândia, que venha o inverno, que venha a primavera, que venha o outono, quero está com você comemorando com todos que defendem e praticam o cumprimento do “Princípio Constitucional da Legalidade e da Moralidade” até a chegada de um novo verão com trovoadas ou não.

 

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